terça-feira, 1 de julho de 2014

Ouro de Morto

Depois que fecharam o porto, só sobrou mendigo aqui no bairro. Se você pegasse qualquer transeunte pelos pés e o virasse de cabeça para baixo, não cairia uma moeda sequer.
Os marinheiros e os comerciantes, assim como as meretrizes, movimentavam o lugar. Havia muitos bares, lojicas, casas de jogos, enfim, era uma região próspera.
Em três anos tudo mudou. As ruas estavam cheias de mato, as calçadas estouradas e a iluminação pública depredada. Tudo se tornou breu, lixo, desamor, desencanto.

Numa terça-feira fria e chuvosa, estava parado em frente ao único bareco aberto que sobrou depois da grande crise, quando vi uma fila de carangos que rumava ao cemitério. Um cortejo enorme, mais de quinhentos carros.
Deve ser alguém importante, pensei, deve ter algo de valor consigo. Parece maldade dizer, mas, porra, nenhum morto precisa de grana.
Acompanhei o cortejo. Caminhei devagar. Logo que cheguei ao portão principal, vi que a multidão se aglomerou em um túmulo bonito.
Acendi um careta e fiquei esperando como um abutre que aguarda pela carniça. Não demorou muito e começou a ladainha do padre e o choro dos vivos. Em sinal de respeito tirei o meu boné.
Logo que a cerimônia teve fim chegou o coveiro que, baixou o caixão e colocou algumas lajes de concreto em cima, como se fosse tampa. É um momento em que ficam alguns da família, somente.
Quando vi que o coveiro saiu, fiquei alegre. Sabia que ele voltaria mais tarde para cimentar tudo. Naquele momento eu agradeci a Deus pela graça.
Em poucos instantes os demais familiares se foram. Era a minha deixa. Precisava ser rápido, antes que o coveiro voltasse.
Arredei uma das lajes e pulei dentro. Desatarraxei os parafusos da tampa do caixão e logo de cara vi um relógio de ouro e anéis retumbantes em seus dedos.
Fiz uma forcinha e abri a boca do falecido. Vi que reluziu. Retirei meu cinto e o enrolei nos meus dedos. Sem piedade comecei a socar. Consegui quatro dentões de ouro.
Fechei o caixão e escalei a cova. Arrastei a laje para o lugar onde estava e saí andando com meus bolsos cheios.
Próximo da entrada do cemitério encontrei o coveiro, fiz o sinal da cruz e segui sem pestanejar. Ele me devolveu um gesto honroso abaixando o seu queixo.
Logo que cheguei até a rua respirei fundo. Afinal de contas, a grande crise havia acabado. Ao menos em minha vida.
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