terça-feira, 22 de julho de 2014

Sem nada de ruim no estômago

Todos os dias, acontece o mesmo lance. Isso vai mexendo com alguma coisa dentro de você. Começa como algo indefinido em seu estômago. E, com o passar do tempo, se torna insuportável.
Você chega e não quer falar com ninguém. Vai até o seu quarto e, se joga na cama. Aos poucos, os lençóis e o travesseiro, começam a grudar em seu corpo. É desesperador.
Ninguém merece passar uma vergonha maior do que a que já está passando. Não tem coisa mais foda do que se lembrar de tudo, do que precisar assumir que é um perdedor diante de todos, inclusive, da sua mãe.
Você fecha a janela e as cortinas, porque só quer esquecer e apagar tudo. A merda, é que não dá para fazer isso assim, num piscar de olhos.
A sua mina, a sua turma, os alunos do colégio inteiro, todos eles assistem o que o mesmo cara faz contigo, todos os dias. Você apanha antes de entrar na aula, durante o intervalo e, na hora da saída também.

De repente, a porta é aberta pela sua mãe. Ela quer saber o que aconteceu. Ela já se deu conta de que todos os dias, invariavelmente, você chega e se fecha no quarto. “Dor de estômago, de novo?”, ela diz.
“Mãe, não enche”. Você se veste e sai batendo a porta, deixando-a falando sozinha. Com um cigarro aceso pelo caminho, quando chega até a praça do campinho, quem você encontra? Ele, ele mesmo.
Involuntariamente, você começa a tremer, como um galho verde que balança na copada de uma árvore e, sente que aquele caroço, vai estourar.
Você dá a última baforada antes de se livrar do crivo. Não há o que fazer, mesmo que deseje com toda a sua força, jamais conseguirá segurar tudo o que germina lá dentro das suas entranhas.
Eles estão conversando. Então o papo para e, o maluco fica encarando daquele jeito que o Charles Bukowski fala: feito uma vaca. Saca?
Ele dá um sorriso como quem tem certeza de que vai enfiar a mão na sua cara. “Ele é o melhor em tudo”, é o que ele pensa. É o que todos pensam. Só que não, não desta vez! Não mais, não em cima de você. Nunca mais!
Você simplesmente tira a soqueira do seu bolso, não diz nada e, não perde tempo. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco... E, quando você para de socar, o maluco não se mexe mais. Está com as fuças demolidas. Ele não respira.
Todo mundo que estava com o babaca, fica parado, de boca aberta. Desta vez, eles não fizeram cara de vaca. “As coisas mudaram”, foi isso que eles pensaram.
É o seu momento. Mudo como chegou, você dá meia-volta e, quando chega a sua casa, a sua mãe percebe a sua camiseta branca, tapada de respingos de sangue. Só que desta vez, ela não tem tempo de perguntar nada, porque você vomita antes:“Mãe, eu matei um FDP. Eu ferrei com a vida de todo mundo. Mas eu não sinto mais nada de ruim em meu estômago”.
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