sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A Menina Estranha da Festa Americana

*trecho extraído do livro inédito A Última Puta Virgem de Xangai

Ao lembrar passagens marcantes de nosso passado podemos ter uma série de sensações: remorso, culpa, orgulho, alegria, saudade. Não é normal ficar imparcial com as lembranças que mais nos marcaram a vida de uma forma ou de outra. E eu sempre penso nas piores e melhores coisas que já me aconteceram, isto ocorre de maneira absolutamente involuntária, geralmente quando repouso a cabeça dura no travesseiro. Imagino se realmente são lembranças reais ou sombras, imagens de um filme antigo na cortina do quarto, formadas pelo reflexo dos faróis dos carros que passam na rua. Às vezes me levanto da cama e bebo uma dose, às vezes observo o teto e evito as luzes, ou então converso comigo mesmo na esperança de entender o passado.
Mas, como dito antes, lembrar o passado é variável em termos de sentimentos, de sensações, transmitidas por tais lembranças.

...Rio de Janeiro, 1997
Uma festinha americana no antigo colégio. Sabe o que é uma festa americana? Bem, se não for do seu tempo eu explico aqui: era uma festa onde meninas levavam salgados e doces enquanto que os meninos levavam as bebidas. Colocávamos as musicas para tocar e dançávamos por horas, geralmente sob a supervisão de algum (i)responsável. Na minha escola era o grande evento, o mais aguardado pela garotada. A quadra de esportes se transformava em enorme pista de dança, onde os hormônios descontrolados pipocavam numa enorme panela de pressão espinhenta chamada juventude. Eu, que nos primeiros anos escolares sofria na mão dos maiorais, agora me tornara um deles: Agressivo, desbocado, debochado, inútil. Um moleque nojento. Fumava meus cigarros escondido, matava aulas para jogar fliperama, roubava lanches, dava porrada, e era considerado um cara legal (sempre rolou essa tendência de amor pelos idiotas no colegial). Mas, no fundo, eu só fazia o tipo para me defender da sociedade, pois logo nos primeiros anos precisei aprender a nunca baixar a guarda. Os socos na ponta do queixo da ilusão são inevitáveis quando a guarda está baixa.

- Ei, Montanha, A melecuda veio à festa!
- É...? E o que eu tenho a ver com essa porra?
- Vamos sacanear com ela, o Dogão falou pra ela não vir, mas ela veio. Então vai se foder hoje.
- A garota já é fodida, cara.. Deixa ela dançar e comer um salgado. Foda-se o Dogão, aquele sacolé de merda.
- Ihhh.. Qual é amigo? Tá ficando Nerd é? Tá amarelando?
- Vai tomar no teu cu Diego.. Quer levar porrada?
- To te zoando, calma! Mas oh, fala com o Dogão então, ele disse que vai sacanear legal.

Diego era um peixe preguiçoso que nadava ao lado dos tubarões, um merda, um rato vivendo escondido na lixeira de um restaurante. Vivia colado nos maiorais para evitar ser Nerd, para não apanhar de nós. Se alguém da galera pedisse a ele meia hora de bunda, com certeza ele voltaria chorando de calça arriada segurando um pote de manteiga, contanto que, em contrapartida, continuássemos o protegendo e sendo seus “amigos”. Já o Dogão era um moleque de 15 anos pesando 115 quilos. Andava com as roupas surradas em petição de miséria, descabelado, por vezes fedendo, e agredir o mundo o deixava mais confiante; sentia-se menos escroto sendo escroto.
- Fala aí Dogão..
- Qual é Montanha guerreiro!
- Tá aprontando pra Natália?
- Não, ela aprontou pra mim. Eu disse que não queria meleca na minha festa e ela veio.
- A garota tem alergia.
- Foda-se.
- A mãe dela morreu de câncer no começo do ano.
- Foda-se.
- Você é um imbecil.
- Foda-se.
- O que vai fazer com a garota?
- Tirar a saia dela e deixar ela só de calcinha na saída. Quero ver a cara do paizinho dela quando vier buscar.

Eu não deixaria aquele otário fazer nada com a Natália. O apelido de Meleca era injusto. Eu achava que o lenço na mão e o nariz vermelho davam a ela uma espécie de charme triste. As duas tranças dividindo o cabelo, o perfume adocicado e as sapatilhas também me chamavam a atenção. As bonitonas não me atraíam quanto àquela menina triste no canto da sala. Por vezes imaginei que a beijava com meleca escorrendo e tudo mais, apertava sua cintura magra, beijava seu pescoço comprido e a tocava por baixo da saia. Mas, se por acaso eu pegasse a Natália meleca, meus dias de maioral estariam arruinados, então eu me segurava.

- Você não vai fazer nada Dogão. Esquece isso aí.
- Ah é? Quem vai me impedir? Você?!

Chutei as bolas dele com toda a força. Quando ele caiu chutei a cara, arrebentando beiço e nariz, um chute dos bons. Depois chutei as costelas três vezes. Gritei alto que ele não faria nada com a Natália, esquecendo o status e essas merdas todas. Dogão foi pra enfermaria bem ferrado (mas jurando que me mataria) e eu para a sala de detenção. Pela porta de vidro dava pra ver o corredor do lado de fora, e sentada me esperando estava Natália; segurava seu lenço bordado e sorria pra mim. Os outros continuavam dançando na quadra ao som de Depeche Mode.
Arrumei a primeira namorada estranha e destruí minha reputação de maioral naquela noite.

Conheça um pouco mais do trabalho do nosso colunista Allan Pitz no livro 'Estação Jugular'. Clique no banner abaixo da nossa loja virtual e confira!
Gostou? Curta nossa fanpage no Facebook...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Comentários
0 Comentários

0 . :

Postar um comentário