terça-feira, 2 de setembro de 2014

Pronto para vencer uma Guerra que não comecei

Hitler era um louco. Acho que ninguém duvida disto. E quem esteve na Segunda Guerra Mundial como eu estive, sentiu na pele o que um louco pode fazer quando é apoiado por um exército habilidoso, muito bem armado e composto por fanáticos.
A defesa alemã se posicionou em três linhas de frente no rio Oder, a uma distância de 110 km de Berlim. Passamos toda a guerra dizendo que quando chegássemos ali, estaríamos nos portões do Reich.
No campo de batalha, eles aceitavam lutar até mesmo sem munição. Eram loucos como Hitler. E quando se reagruparam em torno de Berlim, mostraram que mesmo em desvantagem, resistiriam fortemente até o fim.
A nossa missão era sobrevoar a defesa alemã e bombardeá-los. E como piloto de um B2 eu consegui completar todas as missões de que participei, mas paguei um preço alto por isto.
O B2 tinha metralhadoras potentes que nos davam uma boa defesa no céu e carregávamos 12 toneladas de bombas e mísseis. Porém, era como uma roleta-russa. Ninguém sabia se voltaria, porque voando baixo durante o dia, tínhamos grandes chances de sermos atingidos pela artilharia antiaérea alemã.

Em minha última missão, o nosso trabalho era bombardear a cidade de Berlim, próximo de onde se localizavam as temidas Torres Flack dos nazistas, armadas com suas poderosas Flack 155mm e seus facilmente manobráveis canhões antiaéreos de 35mm quando o B2 que eu pilotava foi atingido.
Assim que retomei o curso do avião depois de soltar todas as nossas bombas e mísseis sobre eles, a minha missão passou a ser a de retornar até a pista e pousar em segurança. Foi quando notei que saía muita fumaça de uma das nossas turbinas e que a avaria era séria, pois havia vazamento de combustível.
Logo que tentei recolher a torre da metralhadora que o Charles, meu melhor amigo operava, ela não subiu. Pois ficava embaixo da aeronave, próxima ao trem de pouso frontal e a mesma também estava severamente danificada. E para piorar, o cheiro de gasolina era quase insuportável.
Eu senti as minhas pernas amolecerem e tive de fazer muita força para manter minha mão no controle do avião. Tenho a impressão de que Deus me ajudou a estabilizar o voo naquele momento.
Eu tinha a certeza de que o bom Charles seria esmagado quando eu pousasse. Eu mesmo teria de matá-lo, que ironia. Uma sensação ruim tomou conta de mim e de todos os demais que estavam tão conscientes quanto eu sobre o nosso destino incerto e o futuro cabal do nosso camarada Charles.
Logo que sobrevoei a pista, percebi que todos em minha volta mantinham-se calados e olhavam para o azul do céu na esperança de encontrar conforto.
Rapidamente olhei na direção onde o Charles se encontrava e lembrei-me das cartas que ele escreveu durante toda a guerra para a sua noiva e para a sua família. Ele fazia questão de mostrá-las, porque dizia que se ele morresse, eu poderia dizer a todos que ele os amava e que ele não passou um dia sequer neste inferno sem que se lembrasse de todos.
Charles estava com o seu ombro direito dilacerado, mas ainda estava consciente. Lembro-me de que ele bateu continência com o braço esquerdo e permaneceu olhando em meus olhos. Embora tenha sido um momento rápido e tenso, tenho confiança de que não encontrei uma única lágrima em seus olhos.
Posso afirmar com muita convicção que ele estava preparado para morrer. Qualquer um no lugar dele teria sacado a sua pistola do seu coldre e atirado em sua própria cabeça, mas ele sabia que se fizesse isto ferraria com todos nós, porque a bala atravessaria o seu crânio e poderia explodir a aeronave por conta do vazamento de combustível. Uma atitude grandiosa que me encheu de coragem, eu precisava salvar os outros.

Segurei firme e fiz todo o possível para elevar o nariz do B2. Logo que desci o trem de pouso, percebi que a cada segundo o chão estava mais perto e que a vida do Charles ficava cada vez mais curta, porque o trem de pouso frontal emperrou na torre da metralhadora que o Charles comandava.
Foi difícil e enquanto a aeronave deslanchava pelo chão eu via a poeira subir e ouvia o barulho do aço sendo contorcido. Eu não sei o que o Charles sentiu, mas eu senti vontade de chorar.
Quando descemos do avião, notei que havia muito sangue por toda a fuselagem, era o Charles, o meu melhor amigo, um cara que eu aprendi a amar e a respeitar como nunca pensei que pudesse fazer em toda a minha vida.
Em poucos dias a guerra acabou. Quando voltei aos EUA eu tive a chance de conhecer a noiva e a família do Charles, e tudo que pude dizer a eles foi que o Charles foi o melhor homem e o melhor soldado que eu conheci. E que embora isto não pudesse trazê-lo de volta, todos deveriam se orgulhar dele, porque ele fez o que era certo até o fim.
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