domingo, 30 de novembro de 2014

A Sanguessuga da Consolação

Na última conferida no relógio, faltava pouco mais de meia hora para acabar o plantão de Suzete. A mulher de seios fartos libertou seus pés dos sapatos e, com um movimento que gostava de pensar que só ela sabia como fazer, estalou os dedos por baixo da pesada mesa do escritório. Amparou o pescoço com uma das mãos e aplicou a ele movimentos circulares em uma espécie de automassagem, na esperança de aliviar o stress e cansaço. Mesmo com toda a movimentação barulhenta que borbulhava no resto do prédio, gostava de pensar que poderia relaxar nesses últimos minutos que faltavam para a sua liberdade. Deu uma conferida na placa disposta na mesa que dizia seu título e sobrenome, “Dra. Delgado, Delegada Titular”. Gostava do som daquelas palavras e, às vezes, em segredo, as sussurrava para si mesmo.
Seria um fim de turno perfeito se a sua sala não fosse invadida por parte da gritaria que ardia lá fora. A delegada Suzete Delgado quase caiu da sua cadeira quando viu adentrar pela porta um casal de meia idade aos berros. A mulher arrastava o marido feito um saco de batatas enquanto direcionava ofensas lotadas de erros de português ao homem, que por sua vez murmurava desculpas incompreensíveis enquanto protegia a cabeça com os braços esperando os tapas da mulher que salpicavam a todo o momento em seu rosto. Atrás deles vinha o policial Agenor, que de alguma forma inútil tentava apaziguar o furdunço. E foi tentando gritar mais alto que os demais presentes que a delegada o questionou.
-Mas que merda é essa aqui na minha sala, Agenor?
-Desculpa Delegada. Esses dois saíram entrando pela delegacia, eu estava ocupado fazendo um B.O. e não consegui evitar.
-Se eu depender de você para guarnecer essa delegacia, eu tô fodida mesmo. - Virou-se para os dois que já estavam com os ânimos mais calmos após o berro da autoridade- E a senhora, tá achando que tá a onde entrando na minha sala como se fosse a ala das baianas?!

A mulher encorpada de cabelos encaracolados e pele mal tratada do sol respirou fundo. Olhou para a delegada, depois olhou para o marido e em seguida fitou a delegada novamente antes de falar.
-Me desculpa Doutora. Eu sei que estou errada em sair entrando dessa forma. Mas a senhora precisa ouvir o que esse pilantra tem a dizer. É uma denúncia gravíssima doutora. É algo que precisa ser noticiado em todos os jornais, até no ‘pograma’ da Sônia Gimenez se ‘possivê’.
-Calma minha senhora. Vamos colocar ordem nessa zona. Senta aí e me conta a sua denúncia. Que mal este homem fez a senhora?
-Não foi a mim, Doutora. Este traste é incapaz de fazer mal a uma lagartixa, que seja. É mais fácil eu quebrar ele todinho, antes que se atreva a levantar a mão contra minha pessoa. Ora, mas se o mal que foi feito, foi justamente a ele, Doutora!
-Espera aí. Agora fiquei confusa. Se ele é a vítima, porque é que me pareceu que a senhora teve que arrasta-lo a força até aqui?
-E é exatamente isso doutora, tive que arrastar este imprestável a força até aqui. E a senhora já vai entender o porque. – Como se ele fosse um moleque, torceu a orelha do homem que se contorceu de dor- Conta aí pra Delegada, Samuel. Conta o que foi que te aconteceu, homem. Mas olha, conta tudinho, hein. Porque se eu ver que você está mentindo, eu te estripo do pescoço até o saco, seu cabra frouxo.
Samuel era um homem negro com quase cinquenta anos, embora não aparentasse. ‘É mérito da raça’, gabava-se ele. Trabalhava de mecânico na rua da Consolação, e como mérito da profissão, tinha um corpo bem forte para a idade. Um espécime de macho que parecia não ter medo de nada, exceto da mulher Tereza. Sem saber por onde começar, ele começou dizendo.
-Bem. É o seguinte, Doutora. É uma situação meio complicada, mas a senhora há de me entender. Não é fácil como homem eu estar aqui, ainda mais na frente da doutora, que como sendo uma mulher feminina, ainda mais uma autoridade...
-Vamos direto ao ponto Senhor Samuel.- Acelerou a delegada.
-Para de enrolar que a delegada é uma mulher ocupada, homem. – Acentuou Dona Tereza.
Samuel ficou tão pressionado que foi o mais sucinto possível.
-Eu fui estuprado, Doutora.
-Hã?! Explica isso direito, Senhor Samuel.
-Foi como eu estava explicando pra Senhora. Eu voltava de um serão extra que fiz lá na mecânica onde eu trabalho, e foi lá pelas tantas, lá na altura do Cemitério da Consolação, quando eu esperava o último ônibus para voltar pra casa, que aconteceu.
-Foi que aconteceu do senhor ser estuprado?!
-É. Bem, mais ou menos. Não foi bem um estupro. Foi mais como os preliminares de um estupro.
-Preliminares de um estupro? – Agenor perguntou
-Pode se dizer que sim. Eu estava lá no ponto esperando o ônibus, quando esta mulher simplesmente apareceu, me rendeu com uma arma pelas costas, me levou até uma parte escura da rua, abaixou as minhas calças e começou a me sugar do nada.
-Sugar?!
-De canudinho, Doutora. Se é que a senhora me entende.
-Entendo Senhor Samuel. E depois disso?
-E depois mais nada. Depois de terminar o serviço a doida foi embora e me deixou lá.
- Tá vendo, Doutora? E isso já faz dois dias do acontecido. E esse canalha não me contou nada. Só descobri esta história porque ouvi esse imbecil contar vantagem do caso para os amigos enquanto assistia ao jogo na TV. É por isso que eu o peguei pelos bagos e trouxe ele aqui a força pra fazer essa denúncia gravíssima. Com esta mulher a solta, nossos maridos estão em perigo, Doutora.
-E o senhor conseguiria descrever esta mulher, Senhor Samuel? – Seguiu a Delegada, ignorando a mulher.
-Não tem como, Doutora. A mulher me rendeu pelas costas e o lugar que me levou estava muito escuro. A maluca pressionava o cano da arma contra o meu saco enquanto fazia o serviço, e ainda disse que explodiria os meus colhões se eu olhasse pra ela. Eu que não ia me atrever. A única coisa que eu vi naquele nervosismo todo do momento foi aquele trabuco apontado para as minhas partes íntimas, e com certeza era uma automática cromada.
-E esta mulher de causou algum mal a mais? Deixou alguma marca no Senhor? Precisa fazer exame de corpo de delito, ou algo do tipo?
-Não senhora. A única marca que ela me deixou, foi de batom na cueca.
-Então me explica Senhor Samuel. Qual o crime que eu especifico no alto do seu inquérito? Preliminares de estupro? Atentado violento ao pudor? Desvio de esperma privado? – Esfregou as têmporas com os dedos antes de continuar – Afinal, o senhor quer ou não fazer uma denúncia contra essa,... Essa,... Essa,...
-Uma Sanguessuga da Consolação. É isso que ela é, Doutora. – Completou Dona Tereza.
-Na verdade não, Dona Doutora Delegada. Isso de vir aqui é coisa da cabeça da Tetê. Eu não vejo a menor necessidade disso. Eu saí com meu saco intacto. Não tive nada roubado. E tudo que a tal ‘Sanguessuga’ me levou, eu tenho muito mais de onde ela tirou aquele, he he he.

Aquilo bastava para Suzete. E antes que Dona Tereza tomasse fôlego para fazer sua tréplica indignada, a delegada foi logo dando o seu parecer do caso.
-Bem, se ele não quer dar parte, então este assunto, assim como o caso, está encerrado. Não tem o que se fazer. Policial Agenor, por favor. Conduza os dois para fora da minha sala, e logo em seguida, para fora da delegacia.
Na saída, o trio parecia repetir a cena de entrada. Com Dona Tereza ralhando com o marido na frente, e um Agenor desconcertado acompanhando o casal atrás. 
Quando viu a porta se fechar, Suzete conferiu o relógio novamente. E ele indicava que o seu plantão estava encerrado. Estava livre para ir pra casa e dedicar-se as suas particularidades, quem sabe esquecer um pouco das insanidades do seu trabalho. Recolocou os pés em seus sapatos e começou a recolher os seus pertences pessoais da mesa, inclusive a plaquinha com o seu nome. Mas não sem antes sussurrar pra si: “Dra. Delgado, Delegada Titular”. 
Por último, sacou a arma do coldre na cintura. Uma vistosa automática cromada que ela empunhava com orgulho. Conferiu se o trabuco estava travado, e antes de guarda-lo dentro da bolsa, deu um prolongado beijo no cano da pistola deixando uma marca de batom no metal.

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