terça-feira, 4 de novembro de 2014

Construindo seu próprio Cativeiro

O dia não começou muito bem. Aliás, os últimos tempos estão de matar. Acho que é a vida me espremendo contra ela mesma, como se fosse uma meretriz a socar minhas fuças em meio aos seus peitos enquanto me abraça e mente que me ama. E embora receber esse tipo de carinho seja legal, não tem o mesmo efeito quando é dado pela vida. Porque a vida não é perfumada e suas curvas raramente produzem prazer. E isso faz toda a diferença, porque mesmo que uma dama minta pra você que curtiu, você sabe que ao menos você curtiu de verdade, mas se você dormir com a vida, só quem curte é ela, e normalmente é com a sua cara.
Tudo começou quando uma espécie de exército armado de martelo e um monte de ferramentas, vergalhões, madeira e sacos de cimento chegou a minha rua. Eles querem construir mais um arranha-céu. Talvez pra acolher a um grande escritório de advocacia que pouca gente poderá pagar pelos seus serviços, ou quem sabe a um ‘elefante’ gigante pra que um investidor abrigue o seu individualismo, ou até mesmo seja uma grande clínica de saúde que eu jamais terei o dinheiro necessário pra ter o prazer de entrar.

O fato é que esse capitalismo selvagem tira a minha paz. No primeiro dia você leva na boa, na primeira semana você aguenta, e no primeiro mês você até suporta. Só que com o passar do tempo, a barulheira começa a penetrar em sua mente e os seus discos não conseguem mais suprir o seu calvário, porque não importa o quanto de volume você adicione em sua vitrola, o exército sempre fará mais eco do que você. É verdade, essa é uma premissa da vida, o dinheiro faz milagres e mesmo que compre tudo e que não consiga preencher a alma de ninguém por inteiro, eles vencem. Claro, é assim que é.
E em meio a essa loucura toda eu me sinto cansado e com sono. E mesmo agora que estou aqui, sentado em uma cadeira de madeira em frente ao meu fogão de duas bocas e sem forno a cozinhar um macarrão instantâneo pra encher a pança, eles continuam a assentar tijolos em direção ao céu e a berrar com suas ferramentas e seus destinos. Em situação pior do que a minha eu acredito que só estejam os operários do empreendimento, pois eles não têm escolha, afinal, foi o dinheiro dos outros que os jogou ali, nesse escravismo, desde quando cozinharam os seus cérebros com o poder do ter — querer ser — e parecer também serve.
Enquanto isso a água fervente borbulha e eleva os fiapos do macarrão instantâneo pra perto da borda da panela e eu rapidamente entendo tudo, e o que eu saco é aterrador. Tomo um gole do rum vagabundo que comprei com minhas últimas moedas e mesmo antes que possa acabar de engolir deixo um sorriso à solidão em minha volta. Eu sei, todos que tentaram derrubar o sistema falharam. É claro, quem pode com eles? Afinal, o dinheiro faz todo o tipo de coisa, desde arranha-céus até qualquer milagre que seja, e você sabe por qual motivo eles conseguem isso? Porque mostrar dinheiro em pacotes cozinha os miolos das pessoas como a água fervente cozinha o meu macarrão instantâneo em menos de cinco minutos, e isso em nada, me lembra do abraço perfumado de uma meretriz que soca minhas fuças em meio aos seus peitos enquanto mente que me ama; tudo porque o perfume não é o mesmo e o prazer das curvas também não é.
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