sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O Inferno astral do verão carioca

Caros malditos, não existe primavera no Rio de Janeiro. O que existe é a época do clima tolerável (outono/inverno) e a temporada de calor insuportável (primavera/verão). Na temporada de calor, não posso mais contar com os poderes mágicos da minha bebida favorita, o vinho, e devo também fazer aquele ritual de mijadas incessantes tomando cerveja aguada. Os mosquitos perturbam, o ventilador sopra um bafo quente. Você liga o ar condicionado e a energia do bairro acaba. No subúrbio as pessoas lotam as calçadas em busca de ar fresco, muitas vezes sem se importar com os tiros que pipocam nas comunidades tão próximas. O povo consegue rir do calor e da violência entre um papo futebolístico e outro. Às vezes falta água. Às vezes a gente não se fode, mas isso é bem raro.

- Vem gravar aqui amanhã?
- É claro.

Fiz a loucura de retomar minha carreira de ator, e com isso a travessia para a zona sul da cidade é uma constante. Vou e volto de 457 Abolição/Ipanema, para não gastar minha pouca grana com gasolina, que inclusive aumentou de preço agora. Assim ainda sobra um trocado para uma garrafa e, talvez, um sanduíche barato (se bem que nada é barato na parte nobre da cidade).
O ônibus para perto de muitas comunidades no caminho até o meu local de gravação. Amontoam-se nele pessoas eufóricas levando suas barracas de praia, isopores com comida e bebida, rádios ligados em festivais suínos de música detestável. Um garoto coloca a cabeça para fora da janela e distribui gentilezas para os que passam a pé:

- Veado velho!! Fala ae piranha!! Vai o seu filho da puta cuzão!! Ae branquelo arrombado, tu é viado tu, Mané.
O calor aumenta... O ar não circula no ônibus lotado. As vozes grosseiras e insistentes me despertam extrema vontade de apertar a traqueia de alguém. O pobre não precisa ser também pobre de espírito. O que lhe confere valor na sociedade é a maneira como ele se comporta em sociedade. Você não é escroto por ser pobre, eu sou pobre, você é escroto por ser escroto!
O telefone toca e eu atendo.

- Alô..
- Caramba, Pitz, está atrasado..
- Não tenho culpa, o baile funk móvel tá preso aqui em Laranjeiras. Tá rolando blitz.
- Tá beleza então, estamos só esperando você.
- Ok.

Passamos, enfim, pela blitz policial e seguimos caminho. Num cruzamento em Botafogo, o garotão voltou a colocar a cabeça pela janela para falar suas merdas aos passantes. Um homem barbudo cansou de ouvir e tacou uma pedra nele, acertando o babaca bem no meio da boca suja. Gritaria: Racista playboy! Vamos descer pra pegar ele! MAURICINHO DE MERDA! O homem correu, sumiu em uma esquina. E eu? Ora, eu sorri, é claro. A pedra da justiça quase salvou a viagem. Antes fosse uma flecha venenosa naquele rabo.

E a temporada de calor só está começando aqui no RJ.. Paraíso para uns, inferno astral para outros.


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