sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Salve a minha loucura de qualquer sanidade aparente

A fábula da garota que podia salvar todas as noites do fim.

Garota, por favor, salve essa noite. Salve o marasmo dos dias que se arrastam como as correntes de um fantasma antigo, preso em seu castelo de pedras negras. Apenas cale a boca das verdades e me acompanhe livre de conceitos, nas melhores mentiras que pudermos criar hoje. Façamos um brinde, sim, um brinde a tudo aquilo que nos ferra a virtude, para no final arremessar as garrafas vazias de nossos sofismas em pessoas virtuosas.

Cante! Cante em meus ouvidos (propositalmente surdos) uma música tão infeliz que nos faça rir! Vamos encher o tanque do carro velho e guiar por estradas desertas até estourar os pneus, e se nós não tivermos a quem recorrer, melhor. Iremos a pé, até gastar a puta sola dos sapatos.
Seja louca, por favor, seja normal na tua loucura! É tão melhor assim!  Não tire a sensatez para dançar hoje, por favor, esqueça a razão dos livros amenos e vamos aos trópicos de câncer e de capricórnio, e depois aos bares, e aos jardins perdidos depois daquela trincheira. Sentiu o cheiro de pólvora?  O que eu quero é que você arremesse o meu relógio contra a parede, e que me dê por doses de loucura a morfina que eu tanto preciso. Salve esta maldita noite, salve o que resta dela, você pode! Jogue em mim falsas expectativas, e eu te darei falsas esperanças! Jogue-me no chão para que eu possa me levantar, e me abrace para que eu possa lembrar algo distante do abraço! Mate o meu orgulho aos poucos, pois assim quem sabe eu crio um novo, como uma serpente maior e mais venenosa. Coloque fogo na velha casa, pois quem sabe assim eu construa uma melhor, mais forte. Beije-me enquanto assisto ao incêndio, depois comeremos pipoca.

Entenda de uma vez por todas que o tempo é um velocista nato, ele não para, não bebe água, ele nunca perdeu uma corrida! Eu olho sua boca vermelho sangue, você me pergunta se existe remédio para a queda de cabelos; eu penso em filhos e quem sabe um ou dois gatos, você pensa em gatos, e em direitos iguais para as baleias e os esquimós. E eu penso em gatos e animais mortos, e no direito humano de morrer em paz.  Eu vejo você, talvez você não me veja mais.

Eu vejo você hoje. Você me vê?
Salve essa noite. Toda a loucura será sanidade, será benção. Apenas faça. 
Você me vê?


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