terça-feira, 30 de dezembro de 2014

'As Caipiras do Asfalto': uma viagem intepestiva de Reveillon

Allana estava cansada de ouvir o som da própria voz. Passou as últimas duas horas tentando convencer a amiga a agir, e já estava ficando sem argumentos. A tonta permanecia na cama impávida, abraçada em uma almofada no formato de coração onde se lia o seu nome e o do namorado. Agora ex.
-Pelo amor de Deus, quando você vai se livrar dessa almofada?
-Não é porque terminamos o namoro que eu preciso me livrar dos presentes que trocamos. Além do mais, essa é uma boa almofada. Gosto de dormir abraçada com ela.
-Mas tem o nome dele bordado em letras garrafais nessa porcaria.
-Tem sim. Mas qual o problema? Eu durmo de olhos fechados, mesmo. Nem vou ver isso.
A morena de traços finos e longos cabelos pretos bufou e sentou-se na cama ao lado da amiga. Já era maior de idade, mas constantemente passava por situações constrangedoras em que era confundida com uma menina de 15 anos. Tudo devido ao corpo delgado que era o modelo perfeito da fantasia de qualquer tarado. Vestia uma camisa preta do Rob Zombie e se apertava em uma calça jeans provocativa que terminava em um par de botas pouco convencional.
-Escuta aqui, Mariposa. Pelas minhas contas essa deve ser a centésima vez que você termina com esse babaca. E antes que você volte com ele, tudo que eu te peço é a chance de fazermos algo realmente interessante e diferente do que somos obrigados a fazer toda a virada de ano nesta cidadezinha de bosta.
-Mas partir pro Rio de Janeiro assim? Do nada? Faltando poucas horas para o Réveillon, e sem conhecer ninguém naquela cidade enorme. É loucura, Allana! 
-Estou aberta a sugestões. Tem alguma proposta melhor? – disse arrancando a almofada do colo da amiga e arremessando em um canto do quarto.
-Bem,... Eu estava pensando em esperar o Venâncio ligar, a gente se acertar e ver se ele sabe de algum lugar legal para passarmos o ano novo.
-É sério isso? Esse cara já te bateu umas duas ou três vezes, garota. Da última vez, se não fosse eu correr com você desmaiada para o hospital, não sei onde estaria agora. Onde você encontra esses imbecis?
-Tudo bem. Então vamos recapitular o seu plano brilhante. A gente vai pra rodoviária, compra passagem pro Rio, chega na Cidade Maravilhosa, e aí? E depois disso?
-Pegamos um taxi e vamos até Copacabana. E depois passamos a noite no maior Réveillon do mundo.
-Falando assim parece fácil.
-E é.
-Ah é? Eu nunca fui ao Rio e não conheço nada por lá, e creio que você também não, espertinha.
-Mas eu já pesquisei tanto e tracei a rota que faremos tantas vezes na internet, que já é como se eu morasse lá.
-Eu também assisti todas as temporadas de House, mas nem por isso estou apta a dar um diagnóstico preciso sobre essa sua loucura súbita de viajar em cima da hora para o Rio de Janeiro.
-Você não entende? Eu só quero sair um pouco desse mundinho medíocre que nos cerca. Eu me sinto sufocada nesta cidade. E se eu tiver que passar mais um ano novo na praça da cidade com aqueles shows locais bancados pela prefeitura, eu me mato.

A discursão entre as duas foi interrompida pelo toque do celular de Andrea, que vibrava e exibia a foto do ex-namorado enquanto tocava uma música de amor dos Beatles. Talvez ela pudesse ser tão atraente quanto à amiga, se não tivesse tomado tantas decisões erradas na vida. Principalmente em relação às suas relações. Tinha os olhos de um azul profundo cravejados em olheiras notáveis. Um cabelo multicolorido mal tratado cortado na altura do ombro, mas seu corpo era magro, com seios tristes e a pele queimada de sol. Na ponta dos lábios se envergonhava de uma cicatriz adquirida em uma briga feia com um ex-namorado. Na coxa esquerda serviu de cobaia para outro ex que se dizia tatuador profissional. Pediu que fosse desenhada uma linda borboleta, mas após o retardado tomar algumas doses de vodca misturada com alguns comprimidos antes do serviço, ela terminou com a imagem de um inseto que mais parecia uma Mariposa tatuada na perna. Daí a origem do seu apelido.
-Não atende esse trouxa, Mariposa. Eu estou te pedindo. Por mim. – suplicou a amiga.
O refrão da música repetiu mais uma vez e logo o aparelho caiu na secretária eletrônica. Andrea apertou a tela e colocou o celular no viva voz para que pudessem ouvir o recado de Venâncio.
-"Amor! To voltando pra você, querida. Desculpa por tudo. Eu juro que não queria fazer aquilo. Estou indo pra sua casa pra gente resolver essa besteira toda e começarmos esse ano novo com o pé direito. Chego aí em vinte minutos. Te amo, bebe! Beijos”
Ao fim da mensagem, Allana pegou o celular e apontou para a amiga como se fosse uma arma, de forma intimidadora.
-Ok! Temos vinte minutos até que esse verme chegue aqui e estrague tudo. E então será mais um ano inteiro até termos outra oportunidade de assistir a queima de fogos do Réveillon em Copacabana. É pegar ou largar. Você vem comigo, ou vai ficar nessa cidade tosca com esse otário?
O Monza verde de segunda mão estacionou facilmente na vaga enquanto a sua estrutura balançava ao som de uma banda nacional da moda que berrava em seus alto-falantes. Venâncio saltou do possante tunado e se divertiu apertando o controle e ouvindo o apito do alarme recém-instalado no automóvel. Um luxo que desejava faz tempo. 
Caminhou com cuidado para não sujar os tênis coloridos nas poças de água formadas na rua pela última chuva. Chegando à porta antiga de madeira, deu as tradicionais quatro batidas que estava acostumado. Porém, nenhuma resposta saiu lá de dentro. Esperou alguns segundos e repetiu o processo, mas novamente nada aconteceu. Indignado, esgueirou-se pela lateral da casa e tentou espiar pela janela de vidro. Enquanto procurava por algum sinal de vida no interior da residência, foi surpreendido por uma voz esganiçada que assustou o rapaz.
-Se está procurando por aquela magricela, tá perdendo seu tempo.
A vizinha surgiu como um fantasma sobre o muro e encarou Venâncio com um olhar de reprovação. A mulher enorme tinha os cabelos encaracolados presos à cabeça por um lenço azul e espremia os seios fartos em uma blusa surrada com a propaganda de um politico esquerdista que perdera na eleição passada.
-Ah! Olá Dona Efigênia. A senhora me deu um baita susto. Por acaso saberia me dizer pra onde a Andrea foi?
-E como eu posso saber rapaz? Acha que eu fico aqui o dia inteiro nesse muro tomando conta da vida dos outros?
Sem tentar confirmar a ironia das palavras da mulher, Venâncio prosseguiu.
-Não. Claro que não, Dona Efigênia. Eu só perguntei por que a senhora poderia ter ouvido ela falar alguma coisa quando saiu, ou me dizer se ela saiu acompanhada por mais alguém.
A vizinha olhou desconfiada para o rapaz e respirou fundo antes de continuar.
-Tudo que eu sei é que ela saiu apressada com aquela amiga doidinha dela. As duas estavam com duas mochilas enormes nas costas. Com certeza vão fazer alguma viagem, pois eu vi quando foram pro ponto e embarcaram no ônibus que vai direto para a rodoviária. Mas fora isso, eu não sei de nada. Nem estava aqui quando aconteceu.
Insatisfeito com o que ouviu, Venâncio mal agradeceu a mulher pela informação e logo correu de volta ao carro, dessa vez sem se importar com a água do chão que sujava seu tênis novo a cada passo pesado que dava. Assumiu o volante e conferiu o relógio de pulso. Faltava apenas sete horas até o fim do último dia do ano. E antes que soasse as doze badaladas da noite, ele estava decidido a encontrar aquelas duas, a namorada e a vadia da Allana, e impedir a dupla de chegar onde planejavam ir. Talvez elas nem mesmo chegassem a ver o próximo ano.
O carro saiu cantando os pneus, enquanto no rádio o cantor gritava o refrão: ‘Ainda vou te levar, pra outro lugar!’
...Continua
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Comentários
1 Comentários

Um comentário :

  1. Gostei muito da temática e do desenvolvimento da história. Espero que Andrea e Allana consigam escapar desse crápula e que ele tenha uma boa lição pra nunca mais agredir mulheres, embora um lado realista meu diga que no fim das contas ele vai chegar a tempo na rodoviária e Andrea voltará com ele. Será? Rsrsrs. Aguardando ansiosamente a continuação!

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