terça-feira, 10 de março de 2015

O meu jeito simples de ver as coisas

“Seja bem-vindo ao bar do Jack”. É o que diz o letreiro no alto da porta. Quem entra aqui, sabe o que procura, e se não sabe, eu logo digo onde está pisando. Gosto de prevenir a todos, sem exceção, é uma precaução que tomo pra evitar problemas. E depois de tantos anos com as portas abertas, eu até já decorei o que tenho de dizer e como devo começar.
Eu nasci nesse bairro e cresci por entre todo o tipo de delinquente. Então, desde muito cedo, aprendi a lidar com eles. Eu me lembro da primeira vez que levei uma surra e cheguei chorando em casa. Meu velho me deu um empurrão da porra e tirou o cinto. Depois me disse: “Cala a boca, fedelho, e amanhã, volta lá e cobra do cara, só não enche o meu saco”.

Pois é, ele não me deu muitos conselhos na vida. Sempre foi um homem calado. Uma espécie de bloco de pedra incapaz de demonstrar expressão alguma em sua feição. E nos meus tempos de garoto eu costumava dizer que ele era à prova de tudo e todos. E foi assim que aprendi a sobreviver no mais absoluto silêncio com os meus problemas e as minhas aspirações. Sim, eu sou fruto das experiências que vivi por minha própria conta e risco.
Quando eu tinha 15 anos o meu velho bateu as botas. E tudo que me sobrou na vida foi uma fruteira miserável que ficava no fundo de um beco da pesada. Pois é, aqui dentro não havia muita coisa que se pudesse aproveitar. Foi por isso que eu parei de vender frutas podres e transformei a porra toda num boteco cheio de malditos de toda espécie.
Os livros estão nas prateleiras, leve pra sua mesa qualquer um que quiser, mas não pode pegar emprestado ou rasgar. E também não é permitido derramar bebida em cima de nenhum deles. Se preferir subir ao palco e ler um trecho, tudo bem, o sistema de som está sempre ligado. Mas se tiver algo legal que seja de sua autoria, é só mandar brasa. Porém, se alguém vaiar, aguente no osso do peito, cara.
Pode escolher o som que quiser na jukebox. Ela está cheia dos discos mais doidos que o mundo inteiro já ouviu e eu amo cada um deles. É sério, basta conferir o playlist pra sacar o que estou falando. Mas é extremamente indesejável colocar o seu copo sobre ela enquanto escolhe o som, isso deixa marcas na superfície e essa porra é dos anos 60 e tem muito valor.
Eu durmo num quartinho apertado e acoplado à cozinha dessa bagaça, é a porta da esquerda. Então, é bom não tomar a decisão errada enquanto estiver lá dentro fazendo sei lá o quê. E o melhor pra sua saúde é que não toque em nada, porque a porta que você procura está do outro lado. É isso mesmo, o meu banheiro, é o mesmo que você usa e também fica lá trás, é a porta da direita, e eu gosto dele bem limpo e inteiro do jeito que você encontrou.

Sim, meu nome é Jack, escrevo poesia e tenho todos os livros do grande Charles Bukowski. E o meu modo de ver as coisas é muito simples, quem manda aqui, sou eu, goste você ou não. Pode vir se divertir sempre que quiser, mas se aprontar o que não deve, vou chutar o seu traseiro sem remorso e jogar a sua carcaça lá fora pra que os cães sarnentos mijem em você. Sei que a minha cara é de poucos amigos, mas tenho certeza de que podemos nos entender muito bem. Então, sei lá, cara, seja bem-vindo.

Gostou? Curta nossa fanpage no Facebook...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Comentários
0 Comentários

0 . :

Postar um comentário