terça-feira, 31 de março de 2015

Um bom lugar pra guardar os próprios dentes

“Sente aí, cara”, ouvi, e logo em seguida soou o ranger de uma cadeira ao ser arrastada pelo piso que pairou ao pé da mesa em que o tal estava.
Ele era todo errado e fiquei com a impressão de que o seu nariz estava na sua nuca. Olhei com maior firmeza em seu semblante e vi que a sua boca era um tanto quanto torta, como se houvesse sido reconstruída pedaço por pedaço várias vezes. Dava até pra ver as suas cicatrizes por entre a sua barba muito mais do que rala e sacar que ele aguentou um monte. E a sua orelha direita fazia com que eu me lembrasse da porta do carona de uma Marajó que o meu pai teve, mas que ficou totalmente torta depois que um motoqueiro enfiou a sua moto bem no meio dela e fodeu com a coluna e a canoa da porta da Marajó. Não teve chapeador que a deixasse abrindo e fechando como antes. Porque a Marajó do meu coroa tinha porta de geladeira de tão macia pra abrir e fechar.
“Acho que faltou chapeador pra esse cara também”, pensei, e aceitei o seu convite e me sentei com ele. Eu raramente faço isso, mas olhando assim pra ele eu percebi que havia algo em suas cicatrizes que me agradava, ele se parecia comigo, entende? Sabe, um cara surrado pela vida reconhece o outro assim que o vê.
“Você é o cara dos poemas e dos livros?”, perguntou.
“Sim, sou eu”, respondi.
“É um prazer, nunca conheci um cara que escrevesse”, falou.
“Eu também nunca conheci um cara demolido”, respondi.
Então ele começou a contar a sua história.

Eu peguei o meu bloquinho de anotações e ele não se incomodou com a minha atitude. “Acho que alguém já o preveniu que tudo que ouço e vejo é transformado em literatura”, pensei.
Além de tudo, bem no fundo, esse bando de malditos que conheço gosta da ideia de terem os seus perfis relatados em literatura. Talvez seja uma maneira pra que possam de algum modo superar a falta de reconhecimento por seus esforços. Por suas lutas. Por suas vidas. E por tudo que aguentaram e ainda aguentam, entende?
Vi que o demolido tinha uma garrafa de cerveja sobre a mesa e estranhamente mantinha outro copo cheio além do que usava pra beber e aquilo me deixou intrigado. Mas eu não podia perder o fio da meada e me concentrei nas suas palavras.
Ele contou que foi pugilista e que levou todo o tipo de porrada dentro e fora do ringue, mas que aguentou e que venceu todas as suas lutas até que conseguiu se aposentar com uma renda de um salário mínimo que ele usa pra beber a sua cervejinha quando dá e morar num box de garagem alugado por 100 pratas lá perto dos trilhos do trem.
“Eu passei a vida toda ensinando boxe nas academias mais fuleiras que você pode imaginar e participando de todo tipo de torneio ilegal, saca? Eles pagam mais”, falou.
“Então é por isso que a sua cara está toda demolida?”, perguntei.
“Claro, tem muito a ver com isso, mas o que me fodeu mesmo foi a Mariana”, respondeu, “Ela não soube valorizar o meu amor porque falava o tempo todo da falta de grana e não reconhecia a triste realidade de um atleta-amador que tenta se profissionalizar neste país. Acabou que um dia eu cheguei em casa e ela havia sumido. Tal fato me demoliu por dentro e deixou o meu coração muito mais esculhambado do que as minhas fuças. E então eu nunca mais aceitei que eles me costurassem e sempre aguentei o processo de cicatrização de modo natural”, disse sem perder a calma por um único instante, “Mas eu nunca fui atrás dela e não a quero de volta por nada nesse mundo, eu gosto da solidão e das minhas cicatrizes”, arrematou.
“O amor é pra quem tem coragem e a vida é pra quem aguenta”, pensei, e continuei anotando tudo.

A cada palavra dita o tal demolido ganhava mais o meu respeito. E entre tantas coisas, contou que a maior treta do mundo é esse lance de campeão. Eu tive de concordar. Tanto ele, quanto eu, pensamos da mesma maneira, que um título fica ótimo na parede e no jornal, mas que no fundo não confere tudo que precisamos pra seguir em frente. Afinal de contas, nada pode ser maior do que a sobrevivência nesse mundo de cão.
Ao final do seu relato eu tive de dizer, “Você é um leão, cara”.
Então ele sorriu como um cavalo a relinchar e mostrou a sua boca escancarada que não guardava nem mesmo um dente lá dentro.
“Você perdeu todos os seus dentes lutando?”, perguntei.
“É claro, eu jamais me entreguei na vida. É por isso que peço dois copos pra beber. Eu uso um deles pra guardar a minha chapa enquanto tomo umas e outras e sigo em frente”, falou.
“Cara, você é feito de aço. É o tipo de desafortunado que eu admiro. Agora preciso ir, a minha máquina de escrever vai curtir muito ouvir tudo que me contou”, e tomei o rumo de casa.
Abri a porta com pressa e logo que me sentei diante da minha máquina de escrever eu disse, “Querida, você vai se amarrar nessa história”, e mandei brasa. Escrevi sem parar e de uma vez só. E logo que acabei de datilografar a porra toda, tive de abrir uma cerveja e pensar onde guardarei a minha chapa quando eu perder todos os meus dentes escrevendo. E antes que alguém me mande colocá-los no meu cu, eu já aviso que não me parece o melhor lugar. E depois, cada um de nós guarda o que é seu onde quiser e ninguém tem nada a ver com isso.
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