terça-feira, 24 de março de 2015

Uma loucura de cada vez

Subia uma fumaça quente da privada. O cheiro daquele lugar era horrível. Mas a sensação de mijar me parecia a melhor coisa do mundo. E realmente é, quando você está com a bexiga prestes a estourar.
O bar estava cheio. Parei diante da porta do banheiro. Eu procurava um caminho por entre eles. Tudo que eu queria era chegar até a minha mesa sem precisar falar com ninguém.
Mas logo que sentei, ela chegou junto, “Como vai?”, falou.
Eu a olhei com preguiça, “Estou como sempre”, respondi.
“Quer uma cerveja?”, e me olhou com olhos insanos.
Eu pensei, “Já que tenho de ouvi-la, que seja bebendo”, então respondi, “Sim”.
“Estou com uma novidade pra te contar, Will”, falou.
“Qual?”, perguntei.
Então ela meteu a mão no bolso do seu casaco e riu enquanto remexeu nele. 
Eu esperava qualquer coisa.
“Surpresa!”, disse, “Essa é a Mary, minha filha”, e colocou uma barata morta sobre a mesa.
“Legal”, respondi, eu não estava com vontade de convencê-la de nada. Não perco mais o meu tempo tentando mostrar nada a ninguém, entende? Eu acho que cada um acredita no que quer. Simples assim.
“O meu plano é cuidar bem dela e mostrar a todos que posso ficar com os meus outros filhos. Como é que eles se chamam mesmo?”, ela não lembrava ou nem tinha, não sei, “Bem, isso não importa. Você conhece os garotos, né, Will?”, completou.
“Sim, eu conheço sim”, falei como se conhecesse. Aliás, eu nunca a vi em toda a minha vida. Do mesmo modo que não me chamo Will. E me calei imediatamente.
“Você tem fogo?”, ela perguntou.
Depois que acendeu o cigarro olhou no fundo dos meus olhos e disse, “Você podia casar comigo e ser o pai de todos eles, que tal?”, e soltou fumaça.
Dei um gole enorme e acabei com o que restava da cerveja que ganhei. Empurrei o copo e disse, “Eu preciso ir”.
“Mas pra onde você vai, cara?”, gritou.
“Vou buscar as crianças, querida, não saia daqui”, falei.
“Deixe a sua comanda comigo, eu acerto tudo e a gente se vê mais tarde. Tudo bem pra você?”, falou certa de estar no seu mais perfeito juízo e pegou a minha conta sobre a mesa.
Pensei um pouco sobre tudo aquilo, e quando a olhei notei que estava com os seus olhos marejados. Eu não sabia o que fazer.

“Você tem dinheiro, querida?”, perguntei.
Ela abriu a bolsa diante dos meus olhos e deu pra ver um bolo de notas lá dentro. “Ela é louca, mas tem grana”, pensei. “Certo, a gente se vê em casa, querida”, e tomei o rumo da porta depois de avisar ao garçom que ela pagaria tudo, eu sou um cliente antigo.
Quando cheguei até a calçada, vi que a loja de conveniência do posto de gasolina ainda estava aberta. Fui até lá e comprei uma garrafa de vinho. Apressei o passo e cheguei em casa rapidamente. Tranquei tudo. Abri a garrafa e dei um gole longo. Liguei a vitrola. Sentei na cama e pensei, “Finalmente em casa, e o melhor de tudo, a salvo de todos eles”.
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