terça-feira, 12 de maio de 2015

Quando o fundo do abismo deixa de fazer sentido

De tanto procurar respostas, resolvi mandar todos pro inferno. Olhei em minha volta e juntei o que precisava. “Só levarei o que couber em minha mochila de trilha”, pensei.
Quando bati na porta do senhor Coley, ele arregalou os seus olhos como se houvesse visto um fantasma. É claro, o desgraçado jamais pensou que eu me livraria da sua cara enfadonha.
“O que é isso?”, respondeu, assim que coloquei as chaves da espelunca em suas mãos e mais um punhado de notas.
“Estou saindo”, respondi.
Ele subiu uma de suas sobrancelhas em sinal de espanto. Já prevendo que teria de arranjar outro otário pra alugar a sua pocilga e ser pressionado dia e noite com o famoso aumento do aluguel. E antes que me falasse qualquer coisa: eu sumi, evaporei.
“Você vai morrer de fome”, disse meu chefe, tão logo pedi minhas contas, naquela segunda-feira maldita, onde ele, mais uma vez, dava ordens e reclamava de tudo e todos. E, ao tempo em que a maioria sorria falsamente, e esperava com ansiedade pra que o seu cabelo secasse depois da mijada, eu o mandei praquele lugar.

Então o homem carrancudo manteve-se calado, a olhar em minha direção, agora identificando que o meu caminho era mesmo o da porta, enquanto exalava sua inexistente superioridade e ostentava o seu relógio de vinte mil reais ao alcance dos meus olhos. “Tolo. Ele sempre foi um tolo. Só que de agora pra frente, será um tolo sem minha presença”, pensei.
Caminhei por horas seguidas sem me importar com o sol a pino que torrava meus miolos. Pois tudo que me fazia sentido era fugir de um estilo de vida que nunca completou o meu ser. Eu precisava de pássaros, de árvores, de água sem gosto de merda, e principalmente, de paz e liberdade. “A sociedade é uma prisão barulhenta e fútil”, pensei, no instante em que movia minhas pernas sem qualquer resquício de arrependimento.
Troquei anos de serviço quase escravo e feridas esparramadas por todo o meu coração, por uma longa fazenda de canvas e alguns utensílios e mantimentos muito bem escolhidos pro início, “E foda-se a previdência, porra! Foda-se!”, pensei. Guardei uma merreca em uma conta-poupança, sendo que boa parte do valor de tudo que juntei na vida, apliquei na compra de um pedaço de montanha só pra mim.
A dez quilômetros da cidade, já me sentia muito melhor. Eu respirava fundo e aproveitava um tipo de ar muito mais leve; e quando olhei pra trás, senti vontade de chorar por todos eles. Porém, sempre soube que só se pode salvar um homem de cada vez; afinal de contas, quando se tenta salvar a muitos de uma vez só, entramos em um terreno perigoso no qual eu nunca pisei. “Preciso salvar eu mesmo”, pensei rapidamente, certo de minha decisão.
Andei por mais de uma hora; e me dei de cara com o cordão de isolamento que delimitava o meu espaço. “Cheguei, o paraíso é aqui, e este, realmente não é artificial”, concluí, tão logo olhei pra uma fonte de água estonteante, a qual dava vida a um grande e resplandecente lago, onde um número magnífico de peixes nadava na flor d’água como se fossem anjos de luz, e os pássaros cantavam sem que eu pudesse ver a todos eles por entre as árvores. Larguei minha mochila, sorvi um gole fresco e tive a sensação de rejuvenescer uma década, por conta da água que experimentei e do canto que ouvia.
Ao final do dia, minha morada estava pronta, totalmente construída com tecido de canvas, cordas e estacas. Estiquei meu corpo sobre os pelegos e fiquei ali, quente e confortável, a olhar em direção da fogueira feita com gravetos, e diretamente alinhada com a porta, até me perder em suas chamas. Foi quando avistei, através do ângulo superior que cruzava para além das flamas, a fartura em minha volta, tudo ao alcance de minhas mãos.

Levantei e deixei que o bambu ao fogo, o qual fazia o papel de panela, cozinhasse uma boa servida de pinhão e sentei à beira do precipício. Era tão lindo, alto, imponente, e de certa forma, implacável; porém, eu não olhava mais na direção do fundo do abismo, mas sim, de encontro ao céu, em linha reta.
E neste momento, a paz e a liberdade me cobriram de uma benção tão forte que, em instantes, sobre meu corpo ou alma, nenhuma cicatriz ou ferida persistiu. Eu sabia que tudo que tinha de fazer era viver. Viver muito, até o dia de deitar na terra e ser engolido por ela. Pra que em tempo hábil, possa retornar ao mundo como sendo um espírito que carregará o único e exclusivo privilégio de fazer parte da montanha, e alcançar a vida mais completa e eterna possível.
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