terça-feira, 5 de maio de 2015

Um gato pingado

Caminhei por quase duas horas, e tudo que vi foi um gato que aproveitava uma lixeira pra se esbaldar.
“Está com sorte”, pensei, ao olhar nas fuças do bichano.
E no mesmo instante, o vi saltar ao chão e me seguir.
“Acho que estou fedendo como um peixe podre”, deduzi, e segui o meu caminho.
Foi quando farejei uma onda de gordura que fez com que eu salivasse.
“A fome é triste”, confabulei, há dois dias eu não comia porra alguma, porque quando começo a escrever, entro em uma espécie de transe, sei lá.
Sentei-me à mesa que ficava do lado de fora do boteco e mandei ver três pastéis que pingavam gordura e mostravam uma boa quantidade de carne-moída dentro de cada um deles.
Eu realmente estava com sorte.
E não demorou muito pra que o gatuno aparecesse.

O danado sentou-se sobre a própria cauda, aos meus pés, e arregalou os seus olhos na direção do meu pastel.
Eu me comovi com sua fome e dei-lhe um pedaço generoso com uma boa quantidade de carne-moída.
A pinga era de alambique, e o atendente não ficou me enchendo de perguntas ou tentando ser gentil.
O silêncio só era quebrado pelo vento que soprava daquele jeito que só o Minuano é capaz de fazer.
Eu me sentia tranquilo, pois já estava acordado há quatro horas e ainda não havia me aborrecido.
Eu começava a pensar que a vida era boa, e que a sorte finalmente havia me encontrado em definitivo.
Então eu senti que o felpudo roçava em minhas pernas como quem agradecia pelo lanche.
Olhei pra ele e sorri.
E o gatesco continuou a me olhar com seus olhos enormes e parecia que via em minhas fuças algo parecido com companheirismo.
O peguei com cuidado e o coloquei dentro do bolso de meu casaco.
“Vou chamá-lo de Sorte”, decidi.
E Logo depois, tomei o caminho de casa.
Já passava do meio-dia e o vento corria com mais força e ficava mais gelado a cada instante, tanto que o meu mais novo companheiro dava mostras de que dormia profundamente.
Quando me dei conta estava em frente de casa.
E tão logo abri a porta, notei que aquela bola de pelos acordou e soltou um miado esplêndido.
O retirei do bolso de meu casaco e o coloquei sobre a cama desarrumada, e o vi embrenhar-se por entre os cobertores.
“É, ele está mesmo com sorte, e eu também”, ponderei.
Afinal de contas, um pequeno felino não merece morrer de fome ou frio.
E bem lá no fundo, mas bem lá no fundo mesmo, eu também não.
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