terça-feira, 9 de junho de 2015

A Revanche

Abri meus olhos e mirei o teto por longos instantes. As moscas voavam e o meu estômago parecia torcido. E isso me fazia entender de onde vinha boa parte do cheiro que adornava as minhas camisas, os meus casacos, a minha pele e os meus pensamentos.
E a minha carniça é invariavelmente composta de café preto, gordura de pastel, álcool, tabaco, perfumes baratos e toda a alma que faz daquela espelunca, a mais odorosa da cidade.
Não pense que estou reclamando, é apenas um autoexame de reconhecimento. Quando reviro o meu ser, as minhas roupas, a minha quitinete, os meus escritos e todo o mais, encontro mais ou menos a mesma coisa: a minha vida. E a minha vida é quase uma extensão daquela pocilga.
Pois é, realmente não busquei nada diferente disso. Eu sempre soube que a desgraça não atraía tantos candidatos e isso me mostrou que eu não precisava lutar pra ter o que a maioria sempre desdenhou.
Louco. Inútil. Desafortunado. Perdedor. Seja lá como for: pouco me importa. A grande verdade, é que eu não pretendo ser um exemplo. Há homens demais preocupados com isso e acho que os sem sorte também merecem admiração.
Olhei na direção do criado-mudo ao lado de minha cama e encontrei um maço de cigarros ainda lacrado. Abri e acendi um. Foi quando me surpreendi com o que encontrei.
Havia uma nota de cem, toda enrolada em um guardanapo de bar, acho que nem preciso dizer que cheirava como a minha vida, e me lembrei da disputa de queda de braço que rolou na noite anterior; o maluco jogou tudo que tinha.
Então me dei conta, e me bateu uma dúvida, o que fazer? Pensei um pouco, enquanto arrastei a minha carcaça até a janela e tomei uma decisão: eu precisava de uma xícara de café preto e um pastel gorduroso, mas pra isso, eu tinha de me entregar ao meu suposto niilismo e voltar ao boteco, o mesmo de sempre.
E tão logo cheguei à espelunca, ouvi alguém gritar, “Ele chegou!”, e então eu abri um sorriso amarelo.
Foi quando o cara levantou e disse, “Duvido que me ganhe de novo”.
A maioria é assim: eles querem tudo. E não suportam a ideia de que alguém pode disputar com eles de igual pra igual e levar a melhor vez ou outra.
Eu olhei bem no meio dos olhos dele e respondi, “Eu também, e por isso, vou tomar um café preto e comer um pastel, enquanto você toma conta do seu trono”.

Notei que o bar ficou em silêncio. E me preparei pra quebradeira. Mas não foi necessário, o desafiante só queria o trono e nada mais. E isso não é um problema meu.
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