terça-feira, 23 de junho de 2015

Um boteco fedido também tem o odor do amor

Já era alta hora, madrugada fria, e mesmo assim, todos estavam dispostos a não dar o fora antes de o dia clarear com uma geada das mais fodas.
Acho que o sarau com poemas de amor que fora feito no início da noite animou os caras —, sim, pra que você recitasse o que escreveu, tinha de falar de amor, porra.
E sempre que isso acontece, desce muito mais vinho; muito mais uísque; muito mais conhaque; e o lugar fica todo enfumaçado, por conta do fumo indiscriminado: sim, meus clientes não temem o tabaco ou a morte — eu não esperava menos de alguém que frequenta o bar do Jack.
A jukebox dava um show, os caras queriam beber e dançar, pois as damas inebriavam a todos com seus corpos e seus movimentos graciosos que faziam com que qualquer desalmado caísse no ritmo.
A vida é assim, pra dançar, é preciso coragem, e poesias de amor e bebida são as faíscas necessárias pra que quase todo mundo encontre a sua; não é mesmo?
O nosso tradicional Baile da Poesia sempre chamou a atenção dos caras — há mais de 20 anos que rola essa parada aqui —, sim, quem não precisa de um pouco de ópio pra abrandar essa vida filha da puta que todo mundo leva?
Foi quando alguém que dançava, pediu a palavra, e em seguida, após uma breve pausa no som, em meio aos gritos dos demais, ele tomou o último gole de coragem que precisava e disse com todas as letras: “Querida, eu a amo; aceita casar comigo?”, e no mesmo instante, entregou a ela, um poema que dizia o seguinte: “Por todos os meus dias, eu a amarei, e por todos eles, prometo dançar”.
Houve um silêncio enorme, e alguns segundos depois, com os olhos cheios de lágrimas, ela respondeu: “Sim”, e foi louco. Então a música voltou ao som de Elvis Presley e a pista ferveu, dava pra sentir o cheiro dos corações que queimavam de amor.
Confesso que fiquei engasgado, e que corri pra trás do balcão pra que ninguém percebesse que estava emocionado. De imediato, lasquei um gole da pura pra me refazer e recobrar a minha postura de casca-grossa, mas não foi possível, nem mesmo o meu coração escapou de tal cena.

Eu não tinha saída, e me vi obrigado a desmanchar a minha cara de durão e sorrir, porque mesmo fazendo toda a força do mundo pra esconder os meus dentes, eu também precisava de um pouco de ópio pra abrandar a minha vida filha da puta.
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