terça-feira, 28 de julho de 2015

Tudo igual, mas com uma grande novidade

Eu tinha de enviar alguns livros pelo Correios.
Tomei meu café apressadamente e fumei um cigarro o mais rápido que pude.
Quando tenho de sair de casa fico nervoso e faço tudo muito rápido na esperança de poder voltar e trancar a porta o quanto antes.
É uma espécie de instinto de sobrevivência, entende?
Enquanto subia a lomba eu olhava em minha volta.
Nada de novo.
A senhora da casa verde varria a calçada da rua ainda vestindo o seu roupão, como sempre.
A boca de lobo da esquina continuava trancada com o lixo que a chuva trouxe.
O dono da tabacaria fumava o seu cigarro em frente ao estabelecimento e olhava pro seu relógio como quem abria o seu negócio exatamente no mesmo horário, nem mesmo um minuto a mais e nem mesmo um minuto a menos, há mais de 35 anos.
Cheguei ao Correios. Minha ficha é a E-500.
Sentei na última fileira de cadeiras e fechei a cara, como sempre.
Não demorou e alguém sentou ao meu lado.
Eu levantei e sentei em outra cadeira, gosto de espaço, com tantas cadeiras vazias, ninguém precisa se acotovelar.
No fundo, é uma estratégia de quem se sente sozinho: eles sentam ao seu lado como quem não quer nada, e em cinco minutos você sabe tudo a respeito da vida de alguém que provavelmente nunca mais encontrará.
Sou chamado no guichê 05.
É o mesmo atendente de sempre. Ele já sabe o serviço que uso.
Ponho o dinheiro sobre o balcão, eu já sei o valor. Ele me dá o troco.
Saio na rua e penso nos números que anotei e coloquei em meu bolso.
Olho pra direita.
Olho pra esquerda.
Estou na avenida.
Pra esquerda vou pra casa.
Pra direita vou pro bar.
Tudo se repete.
Vou ao bar.
Pego os números.
Aposto cincão no milhar.
Sento e peço um conhaque. Fico sozinho na mesa.
Estou bebendo e anotando coisas em meu bloco de notas.
É meio-dia e estou quase bêbado. Diminuo o ritmo dos goles.
Preciso aguentar até o horário do resultado.
E quando me dou conta que chegou o grande momento paro de escrever e presto atenção no rádio.
Eu ganhei. Isso é uma grande novidade.
São cinco mil.
Outra novidade.
Dou um grito.
Estou feliz, é mais uma novidade.
O bicheiro quer me abraçar. Eu recuso.
Nada de novo.
Meto a grana no bolso e volto pra casa.
Nunca chego com grana, é outra novidade.
Logo que abro a porta ela percebe algo diferente em meu rosto. Fica me olhando e não fala nada.
Cria-se um instante de apreensão entre a gente.
Eu mostro a grana.
Ela quer me abraçar.
Eu aceito.
Nenhuma novidade.
Ela quer transar.
Eu aceito.
Nenhuma novidade de novo.
Estamos deitados um ao lado do outro enquanto fumamos um cigarro.
Ela olha pro lado e conta a grana.
Deixa um sorriso lindo sair de sua boca.
E não há nada de novo com isso.
Ela me olha e diz, “é uma boa grana”.
E essa sim, é uma grande novidade.

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