domingo, 2 de agosto de 2015

Reencontrando Ex-namoradas .3

Aquela festa não era pra mim. Talvez a dica estivesse na música meio insossa que me remetia ao meu tempo de adolescência. Afinal, quem quer se lembrar desse período obscuro da vida em que desperdiçamos tanta energia útil fazendo coisas que certamente iremos nos arrepender mais tarde? Pois é,... Eu também não. Dessa época, eu só queria que alguns dos meus odiadores pudessem me ver bem aqui, e agora. 
Aquela festa não tinha a minha cara. Talvez o motivo fosse as pessoas do lugar, embebidas em 'euforia chique', daquela embriaguez insensata que você não pode deixar transparecer porque vai pegar mal nos comentários do povo na manhã seguinte. Alguns rostos famosos, outros desconhecidos, e muitos que eu deveria conhecer. No momento consigo lembrar que na pista de dança reconheci aquela atriz que protagonizou uma novela das nove e foi até capa da Playboy, mas o nome dela me falha na memória agora. No banheiro esbarrei com um colunista de um renomado jornal do estado que, de olhos arregalados, me perguntou se eu tinha algum 'barato' pra vender. Na área de fumantes, tenho quase certeza que levei uma leve cantada de um famoso escritor cujo o último trabalho tem se mantido honrosamente na lista dos mais vendidos do mês. E encostado no balcão do bar pude ver tantas outras figuras notórias das capas de revistas, que, para mim, não passavam de ilustres desconhecidos.
Aquela festa definitivamente não era para o meu bico, e talvez a razão disso seja o fato de que o meu nome nem mesmo estava na lista oficial de convidados. Cheguei até lá da mesma forma que alcancei todas as prateleiras mais altas da minha vida. Conhecendo as pessoas certas.
Mesmo com todos esses indícios, confesso que eu ainda tinha uma vaga esperança de que aquela noite poderia ser salva. Afinal, a bebida era de qualidade, de graça, e não tinha cara de que ia acabar tão cedo. Tá certo que no fundo aquelas pessoas não eram tão interessantes quanto a imagem que pretendiam passar, e suportá-las seria um sacrifício a ser feito. Mas em minha biografia consta que fui desprezado por pessoas bem melhores que essas. 
Além do mais, nessa hora eu já havia ultrapassado o ponto de retorno. Tinha bebido o suficiente para cair matando em cima da ex-capa da Playboy e atriz da novela das nove. Quem sabe, até fechar uma parceria com aquele jornalista atrás do tal 'barato'. E, claro, nem chegar perto da área de fumantes.
Eu percebi que a coisa não ia seguir conforme o planejado na sétima, ou seria a nona, vez em que troquei a minha taça vazia por uma cheia na bandeja da mulher que transitava com desenvoltura ao equilibrar as bebidas entre o público. Ela parou bem na minha frente e me encarou fixamente. Olhei para a bandeja achando que tinha feito alguma coisa errada, talvez até quebrado algo. Mas não desta vez. Tudo estava perfeitamente equilibrado sobre a bandeja, só me restando perguntar:
-Posso te ajudar em alguma coisa, moça?
-Você não lembra de mim?
Ah, sim. Típico. Se eu conhecia alguém daquele ambiente, com certeza tinha que ser alguém entre os empregados da festa. Isso sim é bem a minha cara. Talvez o DJ da casa tenha sido baterista de uma das minhas tantas bandas de garagem da juventude. Ou quem sabe o segurança da entrada foi um dos valentões que zombava de mim no colégio. Não duvidaria se o cozinheiro fosse algum amigo que ainda me deve dinheiro. E aposto que essa garçonete com uniforme do buffet postada bem na minha frente provavelmente foi minha, minha, minha... Ex-Namorada.

-Bianca?!
-Que bom que lembrou! Achei que você não ia me reconhecer. Estou bem diferente desde a última vez que nos vimos.
Não sei exatamente se tive poucos momentos bons ao lado de Bianca, se é a minha memória falhando novamente, ou se eu sou apenas um insensível incurável. Mas naquele instante, as únicas referências que me surgiram sobre o nosso falecido relacionamento adolescente, era o fato dos pais dela me odiarem com veemência. E na época, até acredito que eles tenham tido motivos para tanto. Mas a desculpa definitiva que encerrou essa discussão, era que eu atrapalhava a futura carreira brilhante de Bia na arquitetura, e por conta disso tivemos que encerrar nosso caso bem no auge. Se é que você me entende.
Bem,... O que dizer nessas horas?
-Nossa, nunca imaginei te encontrar justo por aqui.
-É! Coisas da vida. Também é estranho te encontrar nesta situação. Na verdade eu trabalho mesmo é em uma loja de roupas femininas, isso aqui é só um bico que faço no fim de semana pra ajudar nas despesas de casa.
-Poxa, e faz isso muito bem. Observei quando você se aproximou com a bandeja na mão, desviou de todo mundo sem esbarrar em ninguém. Eu jamais conseguiria fazer isso.
-Não sei bem se isso foi um elogio, mas obrigada. Escuta, eu preciso voltar ao trabalho, mas gostei mesmo de te encontrar e queria te ver de novo para a gente conversar um pouco mais sobre o passado. Pode ser?
-Claro! Todo mundo gosta de falar sobre o passado. É lá que estão as melhores lembranças. Mal posso esperar.
-Ótimo. Vai ser muito bom. Eu vou anotar o meu telefone para você.
Ela sacou um guardanapo da bandeja, uma caneta do meio dos peitos que estavam bem diferentes do que eu costumava lembrar, e anotou os números assinando o papel com um beijo.
-Me liga!
Agradeci, enfiei o guardanapo anotado no bolso, e fui em direção a saída. Era melhor que eu fosse embora enquanto estava ganhando, e ainda podia me dar o luxo de ter a última palavra nesse caso. Preferi voltar pra casa e deixar o final da noite desenhado como estava.
Já na porta cruzei novamente com o jornalista que parecia ter resolvido metade dos seus problemas.
-Ei, amigo! Você tem seda?
Estendi a ele o guardanapo enumerado beijado por Bianca.
-Faça bom proveito, companheiro. Comigo não deu certo.
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