terça-feira, 4 de agosto de 2015

Sem nuvens no céu

Eu já estava acostumado a viajar na carroceria de um caminhão. Não gostava de ficar na boleia. Lá dentro eu me via impelido a suportar coisas que eu nunca gostei, como por exemplo, falar da minha vida, dos meus objetivos e todas essas porras. Eu bancava o esperto e viajava junto com a carga, em silêncio.
Havia pegado carona com ele em uma cidadezinha há mais ou menos uns 100 km atrás. Não havia nada entre uma cidade e outra, a não ser uma planície coberta por capim. Acabei dormindo sobre os fardos de açúcar e caixas com latas de azeite, enquanto contemplava um céu azul como nunca encontrei em toda a minha vida.
E tão logo senti aquele tranco absurdo e ouvi o som do estacionário, saltei com minha mochila e agradeci pela carona. Sem muita conversa, olhei em minha volta e tudo que vi foi um posto de gasolina cheio de placas em sua fachada. Pensei, “deve ser aqui que tudo acontece”.
Li uma placa que sinalizava um restaurante, e do outro lado da rodovia notei um inferninho. Acendi um cigarro e andei até lá. O pátio estava vazio, a não ser pelo cão sarnento e magrelo que dormia ao lado de uma cadeira de balanço empoeirada e fodida, como eu, e que sequer tomou conhecimento de minha chegada.
Pensei, “acho que não é um bom lugar pra estender um pano no chão e vender livros, mas estou cansado, vou colocar a barraca no pátio e pernoitar aqui mesmo”, e sentei junto ao balcão. Não vi ninguém atendendo, e resolvi esperar.
Foi quando ouvi, “o que vai querer, forasteiro?”, disse em tom efusivo.
“Quero uma dose de pinga, outra de vermute, uma de catuaba e três pedras de gelo, tudo no mesmo copo”, falei sem qualquer entusiasmo.
Ouvi o barulho das garrafas e os passos de quem servia. E tão logo vi o copo diante de meus olhos dei um gole fundo, sem procurar qualquer contato visual com quem serviu.

“Quanto é?”, perguntei.
“Cinco reais”, disse, e imediatamente começou, “você mora aonde? O que você faz pra ganhar a vida? Mudou-se pra cá?”, e uma série de perguntas, que eu nem mesmo consigo me lembrar de todas, foi lançada em minha direção.
Coloquei a grana sobre o balcão e sequei o copo de um gole só. Sem nada dizer, tomei o caminho da porta, eu tinha bons quilômetros pela frente, a única saída era voltar ao posto de gasolina.
Assim que cheguei, encontrei o caminhoneiro que havia me dado carona, e percebi que estava de saída. Fiz um sinal pra ele e o mesmo abriu a porta da boleia pra que eu subisse. Eu não disse nada, fechei a porta e me acomodei sobre a carga, no mesmo lugar onde estava.
O sol quente queimava o meu rosto e certo azedume tomava conta de meu ser, foi quando pensei, “podia ser pior, ao menos não está chovendo”.

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