terça-feira, 25 de agosto de 2015

Uma dúzia de cerveja e algumas revelações

Havia um sol capaz de cozinhar os miolos de qualquer um. Enquanto subia a lomba podia notar o suor que escorria de minha testa. E começava a me amaldiçoar por ter tido a ideia de sair pra comprar cerveja, “droga, eu tenho duas garrafas de vinho em casa”, pensei, “o ser humano é assim mesmo, estamos sempre atrás das coisas que não temos”.
Acendi um careta e fiquei feliz por encontrar a sombra das marquises sobre minha cabeça. Parecia até que estava embaixo do chuveiro tomando um banho gelado devido ao contraste em relação à temperatura.
Olhava em minha volta e via garrafas quebradas e todo tipo de lixo resultante da loucura coletiva. Quando um homem chega em casa, na sexta-feira de tardinha, e joga a sua gravata no cesto de roupa suja, é como se ele deixasse sua alma oprimida lá dentro, e pudesse usar uma alma livre que o completa. E nesse momento ele se torna um maldito sem qualquer compromisso ou responsabilidade com a sociedade. Tudo que ele quer é extravasar, e se livrar da inhaca de uma semana inteira no purgatório, quebrando o maior número possível de regras que tanto o aprisionam. E isso inclui ficar maluco e emporcalhar as ruas durante a madrugada toda, enquanto pretende se divertir com o máximo de liberdade e bebida possível. O que transforma o sábado matinal em um dia de ruas completamente reveladoras, pelas quais eu ando seguidamente.
Cheguei até o maldito boteco arrastando as pernas e tão logo coloquei os pés lá dentro, gritei: “Ei, Telmo, preciso de cerveja”. Olhei ao redor e notei que ele não dava as caras. Fui até o freezer, peguei uma e mandei brasa, “ah!”. A cerveja descia como se fosse sorte e tive a sensação de que fui inundado pela esperança novamente. Parecia que minhas pernas tornaram-se firmes como os pilares enormes que sustentam esses prédios, que cobrem toda essa avenida, e que matam as árvores por falta de sol. Que ironia, o sol quente, que cozinha miolos, faz falta pras árvores. A vida é assim mesmo, o veneno é o soro. Pois o mesmo lixo que deixa a cidade imunda no sábado de manhã, também liberta o homem que fora aprisionado durante a semana.
Caminhei até a porta e fiquei ali, parado, bebendo goladas de cerveja enquanto dava um tempo pra que o Telmo aparecesse. Foi quando ouvi aquela voz ao fundo, “Como vai, Tom?”. Por um minuto achei que não fosse ele, pois a sua fala demonstrava um homem ofegante ao ponto de mudar até mesmo o timbre emanado pelas suas cordas vocais.
“Uma dúzia de cerveja”, eu disse. E no mesmo instante ouvi o tilintar das garrafas e o barulho dos cascos cheios topando com o balcão. Girei meu corpo e, tão logo fiquei de frente pra ele, tive uma visão que me pegou de surpresa.
O Telmo imediatamente deixou um sorriso malicioso escapar pelo canto de sua boca, “o nome dela é Mary, é a minha garota”.
Cocei meus olhos e quando firmei meu olhar confirmei que ela não era uma garota convencional. “Muito prazer”, falei.
“Ela não é de falar”, disse o Telmo.
Então eu apenas balancei a minha cabeça de maneira afirmativa e coloquei a grana sobre o balcão. Peguei as minhas cervejas e tomei o caminho da porta. E tão logo devolvi meus olhos pra dentro da espelunca flagrei o Telmo amassando a Mary como se ela fosse de carne e osso.
“Tudo bem”, pensei, “se o Telmo decidiu que vai se relacionar com uma manequim de vitrine de loja, eu não tenho nada a ver com isso”. Não fiquei feliz e não fiquei triste, apenas pensei em apressar meus passos por entre as garrafas quebradas e todo tipo de lixo esparramado pela rua.
Assim que cheguei, tranquei a porta e abri uma garrafa usando meu isqueiro. E quando estourei a tampa deu aquele som característico, que eu acho a coisa mais próxima possível, de uma representação autêntica do que pode medir o sucesso de um homem. Pensei, “aquela manequim de vitrine de loja está fazendo bem pra ele, afinal de contas, um homem triste não pode acertar o ponto da cerveja”.

Calibrei meu copo e sentei diante da máquina de escrever. Queria transformar esse dia, tão sofrido até o momento, em algum combustível. E provar, pra eu mesmo, que meus miolos não estavam cozidos.

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O Dito pelo Maldito é um blog voltado para a literatura de contracultura . Seus textos são provocativos, críticos, cínicos e debochados, muitas vezes não tomando partido em uma questão apenas para poder agir como uma espécie de Advogado do Diabo do caso.
Na verdade um anti-blog criado para falar bem,...de tudo que você odeia.