sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

A dança mais incrível do mundo

A frente fria dos últimos dias no Rio de Janeiro me permitiu beber vinho seco, e isso costuma render boas falações na madrugada. Vamos a uma delas.

Não importa o que dizem os especialistas, você pode dançar naturalmente.
Vou te explicar uma coisa: você nasceu pronto para isso. Os joelhos funcionam de maneira eficaz (as juntas são excelentes, perceba), e os pés, olhem só: se espalham bem no chão fixando base, tudo funciona. E para quê? Para andar? Também, claro, andar é o básico do básico sem ler o manual de instruções. Agora, dançar é a função mais interessante. Dançar é o grande lance!
Você dança todos os dias da sua vida, Zé Mané, e nem sente o balé frenético rolando com você e ao seu redor, o tempo todo. Enquanto dirige, quando nada na praia, quando gira de um lado a outro na cadeira do escritório para pegar os papéis, quando segura o celular e a garrafa térmica ao mesmo tempo. Quando desvia dos outros carrinhos no super mercado. Quando corre atrás do pivete. Enquanto transa. Quando passa a marcha e acelera. Quando desvia das pessoas num ônibus lotado. Mergulha do trampolim. Faz sinal para um táxi. Quando se esquiva dos golpes. É assim que você dança.

Eu não quero ser poético; longe de mim essa coisa cafona que rende tão pouco, esse carma, cachaça terrível chamada poesia. Eu quero apenas ser prático aqui, sim, e desfilar as maravilhas dessa funcionalidade incrível que é o dançar humano. Pois você dança de tantas maneiras... Maneiras tantas... Enquanto vota em sigilo para livrar um colega corrupto, enquanto manuseia um fuzil, enquanto lança uma pedra, uma bomba, uma rosa, um beijo! E dança sem parar feito louco neurótico, até o momento em que a música do mundo para de tocar apenas para você. Esse é o momento trágico para todos nós, bailarinos estranhos, valseiros fodidos, rebolativos seres perecíveis, moribundos festeiros que não passam dos cem anos torrando ao sol.
A tua musica para. A minha para, a de todos. E assim, meus caros senhores, se encerra essa prática funcionalidade humana que é o dançar, assim como todas as outras incríveis e práticas funcionalidades do corpo humano. Porém, convenhamos que nada é tão incrível quanto dançar. Eu mesmo não sei dar dois passos na rua sem dançar, seja para desviar de um tiro, um furo, um carro, um trem desgovernado, um falso amigo, um sapo, um brejo. E não importa o que dizem, nem quantos anos você dança a mesma música, siga fazendo exatamente isso, dance. Dance, e movimente as coisas de alguma forma, não se contente, não se contenha, não se permita paralisar os pés. No fim a música para, isso é normal. E a surdez de não saber o próximo som deve ser terrível, suponho. Então apenas dance os dias conforme a melodia das possibilidades, e faça das horas a melhor amiga do seu relógio. Mate a causa e os meios, dance com os efeitos e com todos os riscos. Pois, repito: a música para. E não podemos deixar de vivenciar essa incrível experiência que é o dançar humano.

Abriu uma adega há dois quarteirões da minha casa... Isso é benção e maldição.
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O Dito pelo Maldito é um blog voltado para a literatura de contracultura . Seus textos são provocativos, críticos, cínicos e debochados, muitas vezes não tomando partido em uma questão apenas para poder agir como uma espécie de Advogado do Diabo do caso.
Na verdade um anti-blog criado para falar bem,...de tudo que você odeia.