quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

5 Livros essenciais da literatura africana

Sabemos que a leitura é a forma mais rápida, barata e segura de se viajar. E é justamente por isso que não tem muito sentido ficarmos presos a apenas um gênero, estilo ou nacionalidade literária. É sempre importante manter um certo rodízio de livros para podermos embarcar no maior número de aventuras possíveis.
Para facilitar esse 'roteiro de viagem', temos rodado o mundo e reunido aqui diversos livros notáveis de países diferentes, como Portugal, Argentina e Japão, de períodos variados.
Embora os autores da África costumem ser bem negligenciados pelo nosso mercado nacional que não investe tanto quanto gostaríamos na tradução de obras africanas, aceitamos o desafio de descobrir grandes leituras de países desse continente, e listar aqui alguns livros essenciais da 'desconhecida' literatura africana:

✔ Terra Sonâmbula, de Mia Couto
Primeiro romance de Mia Couto, Terra Sonâmbula é uma verdadeira aula sobre a velha arte de contar histórias. No Moçambique pós-independência, mergulhado em uma devastadora guerra civil, um velho e um menino empreendem uma viagem recheada de fantasias míticas. Um ônibus incendiado em uma estrada poeirenta serve de abrigo ao velho Tuahir e ao menino Muidinga, em fuga da guerra civil devastadora que grassa por toda parte em Moçambique. Como se sabe, depois de dez anos de guerra anticolonial (1965 a 1975), o país do sudeste africano viu-se às voltas com um longo e sangrento conflito interno que se estendeu de 1976 a 1992. 
O veículo está cheio de corpos carbonizados. Mas há também um outro corpo à beira da estrada, junto a uma mala que abriga os cadernos de Kindzu, o longo diário do morto em questão. A partir daí, duas histórias são narradas paralelamente: a viagem de Tuahir e Muidinga e, em flashback, o percurso de Kindzu em busca dos naparamas, guerreiros tradicionais, abençoados pelos feiticeiros, que são, aos olhos do garoto, a única esperança contra os senhores da guerra. 
Terra Sonâmbula é considerada por júri especial da Feira do Livro de Zimbabwe um dos doze melhores livros africanos do século XX e agora reeditado no Brasil pela Companhia das Letras é um romance em abismo, escrito numa prosa poética que remete a Guimarães Rosa. Couto se vale também de recursos do realismo mágico e da arte narrativa tradicional africana para compor esta bela fábula (Editora Companhia das Letras).

 Bom Dia, Camaradas, de Ondjaki
Uma Luanda dos anos 1980 com professores cubanos, escolas entoando hinos matinais e jovens de classe média é o cenário de Bom dia, camaradas. Do universo do romance também fazem parte as lembranças dos cartões de abastecimento, as desigualdades sociais e os conflitos entre modernidade e tradição.
Através do olhar lírico de um garoto, o leitor é levado a uma Angola que acabou de se tornar independente e é obrigada a repensar as regras sociais e a questionar as causas da desigualdade. Ondjaki nos conduz aos pequenos acontecimentos do cotidiano que mostram como é preciso mais que um decreto para que as mudanças de fato aconteçam.
Assim como em outros livros de Ondjaki, o mundo dos jovens e a descoberta da vida adulta e seus conflitos são retratados sem o tom irritadiço das militâncias nem a condescendência do lirismo excessivo. E Bom dia, camaradas é daqueles romances que atravessa as idades e pode ser lido tanto pelo jovem quanto pelo leitor maduro.
A literatura de Ondjaki é especialmente atraente para o público brasileiro, que verá a língua portuguesa ganhar outros contornos e reconhecerá no escritor angolano muito da nossa melhor tradição literária (Companhia das Letras) .

 Nação Crioula, de José Eduardo Agualusa
Fradique Mendes, o aventureiro inventado por Eça de Queiroz, desembarca em Luanda, em 1872, nas costas de marinheiros de Cabinda e na companhia do seu ajudante britânico Smith. Em Angola sofrerá de malária e de amores, por Ana Olímpia, uma ex-escrava casada com o traficante de escravos mais rico e mais revolucionário do território.
Através das cartas escritas para sua amada, seu amigo Eça e para a madrinha parisiense, Fradique Mendes conta com desenvoltura, graça e sentido crítico do seu tempo, uma odisseia que o leva até Pernambuco, num navio negreiro carregado de escravos, e a participar no movimento brasileiro contra a escravatura, cruzando-se com figuras histórias como Joaquim Nabuco e José do Patrocínio Fradique também era íntimo de Victor Hugo, Garibaldi e Bakunin. 
Observando e atravessando, através dos olhos e reflexões de Fradique Mendes, a cidade de Paris, a sociedade colonial angolana ou o Brasil independente, mas ainda escravagista, o escritor José Eduardo Agualusa recupera uma das personagens de Eça de Queiroz e dá-lhe uma biografia acrescentada de eventos considerados romanescos e emocionantes. (Editora Lingua Geral).

 Sonhos em Tempo de Guerra: Memórias de Infância, de Ngugi wa Thiong’o
Um das principais vozes da literatura africana contemporânea e frequente cotado para receber o Prêmio Nobel de Literatura, Ngugi wa Thiong'o revisita sua infância em Sonhos em tempo de guerra, primeiro volume de suas memórias. O escritor nasceu em 1938, em uma região rural do Quênia, durante a ocupação britânica. Seu pai era polígamo e a família, formada por quatro esposas e 24 filhos, era uma comunidade que experimentava as diversas mudanças provocadas pelo colonialismo.
Thiong'o mistura brincadeiras infantis e reflexões sobre o cenário político, como o hábito de contar histórias nas cabanas das mulheres de seu pai, a curiosidade de ouvir a experiência de um irmão que participou da Segunda Guerra Mundial, as brincadeiras com os filhos de donos de terra, e como essas relações mudam quando Thiong'o e seus irmãos passam a trabalhar nos campos. Com sutileza, o escritor compõe um cenário em transformação. Os cultivos tradicionais são substituídos pela produção escolhida pelos colonizadores, homens brancos aparecem nas plantações e crianças mestiças começam a nascer, mudando a composição das famílias.
Sonhos em Tempo de Guerra também explora a descoberta da paixão de Thiong'o pelas histórias, pelas palavras e o momento em que ele se dá conta de sua sede de aprender. Frequentar a escola pode ser algo sacrificante, que exige longas caminhadas e impõe a sensação constante de fome, mas que lhe oferece a oportunidade de aprender a ler, o que lhe permite conhecer muitas mais histórias.
Com um texto leve e envolvente, Thinog'o recorda momentos de descoberta infantil, como a primeira vez em que esteve em uma cidade e seu desejo de viajar de trem pela primeira vez. Suas observações se misturam com as lembranças de ataques da rebelião Mau Mau, que desafiou o domínio inglês defendendo a independência do Quênia (Editora Globo).

Meio Sol Amarelo, de Chimamanda Ngozi Adichie
Filha de uma família rica e importante da Nigéria, Olanna rejeita participar do jogo do poder que seu pai lhe reservara em Lagos. Parte, então, para Nsukka, a fim de lecionar na universidade local e viver perto do amante, o revolucionário nacionalista Odenigbo. Sua irmã Kainene de certo modo encampa seu destino. Com seu jeito altivo e pragmático, ela circula pela alta roda flertando com militares e fechando contratos milionários. Gêmeas não idênticas, elas representam os dois lados de uma nação dividida, mas presa a indissolúveis laços germanos. Condição que explode na sangrenta guerra que se segue à tentativa de secessão e criação do estado independente de Biafra.
Contado por meio de três pontos de vista (além do de Olanna, a narrativa concentra-se nas perspectivas do namorado de Kainene, o jornalista britânico Richard Churchill, e de Ugwu, um garoto que trabalha como criado de Odenigbo), Meio sol amarelo enfeixa várias pontas do conflito que matou milhares de pessoas, em virtude da guerra, da fome e da doença. O romance é mais do que um relato de fatos impressionantes: é o retrato vivo do caos vislumbrado pelo drama de pessoas forçadas a tomar decisões definitivas sobre amor e responsabilidade, passado e presente, nação e família, lealdade e traição. (Companhia das Letras).

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O Dito pelo Maldito é um blog voltado para a literatura de contracultura . Seus textos são provocativos, críticos, cínicos e debochados, muitas vezes não tomando partido em uma questão apenas para poder agir como uma espécie de Advogado do Diabo do caso.
Na verdade um anti-blog criado para falar bem,...de tudo que você odeia.