sábado, 27 de fevereiro de 2016

Preconceito sempre rola, vai acontecer contigo também!

Dona Ana é uma cidadã idônea, e a maior prova disso é que até frequenta igreja. Esposa fiel e dona de casa exemplar que só se abala com a possibilidade de seu filho Rodrigo ‘acidentalmente’ se envolver com uma mulher de cor. Coisa que não tema menor chance de acontecer já que o jovem, ainda na adolescência, já se assume gay perante os amigos mais íntimos. Boato esse, que se espalhou na escola onde estuda gerando a imediata repulsa do Professor Carlos que começou a tratar o aluno diferente (de mal a pior) depois que soube de sua preferência sexual. Mas nem por isso ele se sente homofóbico.

Por estar bem acima do peso, o mesmo Carlos sofre com as piadas maldosas sobre gordo feitas na sala dos professores pela sua colega de profissão Professora Valdete, que por conta de seu alcoolismo crônico, está com o emprego ameaçado e sendo observada de perto pelo diretor do colégio, o Seu Augusto, que se orgulha de nunca ter colocado uma gota de álcool na boca, mas possui um caso extraconjugal recentemente descoberto pelo seu enteado Anderson.
Anderson odeia o seu padastro à quem atribui à alcunha de ‘porco fascista’, mas ignora que no apartamento ao lado um ódio ainda maior é nutrido pelo seu vizinho Roberto, um policial aposentado que se enfurece toda vez que sua casa é tomada pelo cheiro da maconha fumada pelo jovem que mora ao lado. A aposentadoria de Roberto aconteceu por invalidez, já que o consumo de três maços de cigarros diários lhe presenteou com um câncer descoberto já em fase terminal. Por isso, ele constantemente carece do auxílio e da ajuda de sua empregada doméstica Silvia, que, no fundo, acha mesmo que o velho deveria morrer o quanto antes, como todos os outros fumantes estúpidos com boca de cinzeiro.

Mal sabe Silvia que acabou neste trabalho de merda por que, apesar de possuir um bom currículo, foi rejeitada nas três entrevistas anteriores de emprego por conta de suas tatuagens espalhadas pelo corpo. Uma coisa inadmissível para o gerente comercial Marcelo, que rejeitou suas excelentes referências pelo simples fato de achar tatuagem coisa de mulher vagabunda. No fim do expediente esse mesmo gerente fecha o caixa e relaxa com uma boa cafungada de cocaína de ótima qualidade fornecida por um contato que atende pelo nome de ‘Nózinho’.

Nózinho é um homem beirando seus cinqüenta anos, acima de qualquer suspeita, que conduz seus negócios ilícitos e paralelamente sustenta uma vida de classe média alta, de pai de família comum, onde é conhecido como Fernando. Esposo da racista Dona Ana, que vive tentando levar o marido para assistir à um culto em sua igreja. Coisa que ele odeia, já que ainda moço ‘fechou o corpo’ em um terreiro de Candomblé, e acha que a esposa, ao invés de perder tempo com essas baboseiras, deveria dar mais atenção para o filho que anda tendo atitudes das mais suspeitas.

*DIRETAMENTE DO TÚNEL DO TEMPO: Esse texto foi originalmente publicado no DpM em 17/12/2011.
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Comentários
19 Comentários

19 comentários :

  1. Muito fácil falar e pensar dos outros, mas enxergar e admitir o que fazemos é difícil mesmo olhando no espelho.
    To adorando o blog, parabéns pelo post.

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  2. Excelente!!!!!! As pessoas têm a péssima mania de sentar sobre o rabo e reparar no rabo dos outros né? Queria que todo mundo lesse isso, e acima de tudo, não apenas lesse, mas se enxergasse em um desses casos! Amei!

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  3. Tão excelente quanto verdadeiro esse texto. Espero que sirva de alfinetada para alguns e que consiga fazer pensar. Todo mundo já passou por alguma situação assim, dói quando se sente na pele, mas parar prá pensar e mudar de atitude quando vc se flagra pré julgando alguém exige coragem, inteligência e sobretudo coerência, qualidades que deveriam fazer parte da cultura e do cotidiano das pessoas. Porém como diz o velho ditado "Tem, mas acabou" e assim seguimos com nossas vidas pequenas, sendo pessoas pequenas apegadas a questões pequenas que machucam quando nos atingem, mas nunca o suficiente prá nos fazer abandonar nossos dedos em riste tão fáceis de apontar

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  4. Depois do comentário de Blaffert, qualquer comentário será somente "chover no molhado"!
    Triste é reconhecer a si mesmo e aos outros nesse texto! Mesmo me considerando livre de preconceitos, há sempre aquele bem escondido no nosso lado B!

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  5. Este circuito fechado foi um dos mais interessantes e concienciosos que li nos últimos tempos... Parabéns pelo excelente e brilhante texto! Vou voltar sempre!

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  6. O mais engraçado eh ver essas pessoas comentando se achando os certos e num percebem que elsas são as pessoas do texto ;)

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  7. excelente mesmo, demais isso , é exatamente isso que acontece!!!

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  8. Perfeito. O preconceito 'maldito' fica escondido atrás da presunção de gente que acha que os seus, e somente os seus, conceitos estão sempre certos.

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  9. Otimo texto, é valido para lembrar que preconceito tem varias formas .

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  10. Parabéns pela matéria o contexto total ficou fantástico.

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  11. Claro que preconceito sempre vai existir. É um mecanismo de defesa de qualquer ser vivo. Qualquer animal que não identifica outro como 'parte do grupo' vai pressupor que é um inimigo. E cada um tem sua própria ideologia sobre o que é 'meu grupo'.

    AGORA ....discriminação é outra coisa. Prejudicar por saber que faz parte de um grupo que não gosto, isso sim não é ético.
    Todos temos preconceitos e jamais conseguiremos nos livrar dele. Mas ninguém deve discriminar outras pessoas devido a impressões pré concebidas.

    Eu tenho a maior raiva de mano, patricinha, piriguete, playboy, pessoas com som alto no carro, pessoas que acham o máximo beber um monte, evangélico daquelas igrejas que aparecem na tv fazendo mais milagres em um dia do que Deus fez na biblia inteira, gente que acha animais inferiores a seres humano, fans de justin bieber que chamam de 'meu justin' e fans de sertanejo universitário, etc.

    Mas o preconceito é pelo grupo, quando um individuo do grupo vem, eu não posso discrimina-lo até conhece-lo (e ter certeza de que estava certa ou errada quanto a acha-lo um completo idiota).

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  12. "Comigo? Tô acustumado nem me escrevo pro "roturis"
    Prefiro ficar do lado de fora com os amigos
    Tomando 'guaraplus'..."

    De Leve, né...auehauehuae


    Excelente texto, uma bela crítica feita de maneira digestiva, criativa e instigante...

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  13. Eu sou oriental e sou frequentemente zombada pelas pessoas " de cor". Incrível como pessoas que mais sofrem com o racismo são os que mais zoam os orientais. A última vez que me provocaram foi ao tentar atravessar uma rua (numa conversão em cima da faixa de pedestre) uma kombi com um "moreninho" (será que é crime chama-lo assim??) gritar: "Japa, abra os olhos!" Quase fui atropelada!!!! E isso porque ele tentou entrar com tudo em uma rua lotada! Se eu o chamasse de negro, eu iria pra cadeia.. mas se ele me chama de japa (mesmo eu não sendo japa pois sou descendente de tw).. eu sou obrigada a engolir?? E no MC?? Uma atendente "de cor" ficou me zuando dizendo que não tinha palitinhos (eu nem pedi por isso!!) para eu comer saladinha.. e ainda disse que não sabia se eu era japa ou sei lá o que.. e eu expliquei que dizer que todos os orientais são japas é o mesmo que dizer que argentino e brasileiro eram iguais... o outro atendente ainda teve a façanha de dizer que não tinha diferença mesmo... vão se ferrar!! Fico indignada com isso.. assim com os ocidentais.. nós orientais são extremamente diferentes, as diferenças culturais de um país oriental com outro chegam a ser gritantes!! Muito mais diferentes do que cultura espanhola com a brasileira!!! E por mais que eu explique que eu sou tão brasileira (ou até mais, pois escrevo melhor que a maioria dos brasileiros que falam "estrupar") quanto qq "brasileiro ocidental"... ningém quer saber.. serei sempre japa! Imagina se chamo um moreninho pra voltar pra Africa... vou pra cadeia!!! NÃO SOMOS TODOS IGUAIS, EU NÃO SOU JAPA!!!

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  14. Realmente muito verdadeiro o texto.
    Merece ser compartilhado!
    Queria botar algo mais "cabeça" nesse comentário, mas acho que o texto fala por si só...

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  15. Ter preconceitos é natural, não há ser humano totalmente livre desse mal. O verdadeiro problema é quando o preconceito influi no modo de como tratamos as pessoas.É bom ressaltar que atualmente, qualquer opinião contrária a certos assuntos, já é taxada de preconceito. Eu por exemplo, ficaria profundamente triste se meu filho fosse homosexual.É preconceito? Você já ouviu algum pai dizer: Ah! Quero que meu filho seja gay? Eu tenho preconceitos sim, mas ódio no coração, jamais.

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  16. O famoso "quem não tem teto de vidro que atira a primeira pedra".

    Texto excelente, conseguiu abordar um tema cheio de tabus e sim, preconceitos, de forma divertidíssima!!

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  17. cara, você falou TUDO! todo mundo que tem preconceitos nunca enxerga, geralmente diz "imagina, eu sou super mente aberta" e no fundo são os piores! adorei o texto, continue assim ;D

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  18. A HIPOCRISIA E O CINISMO REMONTAM À PRÉ HISTÓRIA.ESSE POST SÓ VEM NOS REFRESCAR A MEMÓRIA E FAZER REFLETIR O QUANTO AS COISAS SÃO ANTIGAS E RECENTES.

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  19. Este conto é de 2011!muito bom, mas o ruim é que ele envelheceu bem.

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O Dito pelo Maldito é um blog voltado para a literatura de contracultura . Seus textos são provocativos, críticos, cínicos e debochados, muitas vezes não tomando partido em uma questão apenas para poder agir como uma espécie de Advogado do Diabo do caso.
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