sábado, 5 de novembro de 2016

Coisas que aprendi com a escrita de Charles Bukowski

Para muitos, Charles Bukowski é considerado um escritor repugnante, sua ficção era horrível, sua escrita simplista, seu estilo narcisista, e muitas vezes misógino em suas palavras. Uma péssima reputação que costuma deixá-lo de fora da maioria das coletâneas de "grandes autores". No entanto, ele continua no topo da lista dos autores mais lidos pelo mundo, além de ser a principal influência do nosso trabalho aqui no site.

Apesar de toda essa 'má fama', não tem como negar que o 'velho safado' é uma personalidade marcante da literatura, e praticamente um guia para muitos escritores iniciantes. E para promover este fato, observamos aqui seis coisas dignas de se aprender com um autor como Bukowski.

Sua Honestidade
Suas quatro primeiras obras são extremamente autobiográficos. Ele detalha o seu sofrimento na infância pintando seus pais como monstros, suas experiências com prostitutas, sua falta de respeito com as mulheres, e seu genuíno desinteresse em manter um emprego por mais tempo que o necessário. Sua poesia são odes à pessoas que ele odiava, autores que desprezava, e aos estabelecimentos desclassificados que frequentava.
Todo escritor que se preze, é capaz de produzir histórias fantásticas provindas de sua imaginação, mas Bukowski era incapaz de fazer o mesmo. Sempre que ele tentou flertar com a ficção, acabou se dando muito mal, e seu último livro é um bom exemplo disso. Mesmo a sua poesia era não-ficção.
E de fato sua honestidade não via limites dentro da sua escrita. Até mesmo outros autores que seguem essa linha, possuem alguns assuntos que consideram 'intocáveis', seja família, casamento, filhos, amigos, etc. Mas Bukowski não se deixava levar por esses tabus. Nenhum outro escritor havia feito isso até então. Ele detalhava cada nuance sexual de cada mulher que se atreveu a dormir com ele depois que ele alcançou o sucesso. Muitas delas ficavam horrorizadas depois que seus livros eram publicados.
É tão difícil quanto parece não ter esses limites. Mas é um desafio que encaro a cada texto que escrevo.

Sua Persistência
Bukowski possui apenas duas histórias publicadas durante a sua juventude (com 24 e 26 anos), todo o resto da sua obra foi rejeitado pelos editores durante este período. Assim, ele parou de escrever por dez anos, voltando novamente só em meados de 1950.
Em seu retorno ele apresentou toneladas de contos e poemas em todos os lugares possíveis, e ainda assim levou anos para ser publicado de novo. E levou tantos outros até ter seu trabalho reconhecido. O primeiro livro bem sucedido que lhe rendeu um retorno financeiro foi escrito aos 49 anos.
A maioria dos aspirantes a artista desistem muito cedo. Quantos músicos você não conhece que desistiram de suas carreiras ainda antes dos 30, para garantir uma estabilidade financeira em algum concurso público?
E toda essa persistência foi exercida em meio a três casamentos conturbados, dezenas de sub-empregos, e sob um alcoolismo ferrenho. Parte deste período tortuoso pode ser visto em dois filmes baseados em sua obra, Barfly e Factotum. Nos roteiros acompanhamos em detalhes os 10 anos em que ele passou pulando de emprego em emprego, de mulher em mulher, apenas tentando sobreviver como um alcoólatra enquanto o mundo tentava jogá-lo pra baixo.
Ele é um Sobrevivente
Quando se pensa no perfil de um alcoólatra, logo imaginamos um vagabundo sem-teto. Mas em determinado momento, Bukowski percebeu que precisava sobreviver. Não importa quantas decepções sofresse, ele sabia que precisava seguir em frente. Para isso trabalhou em inúmeros empregos em fábricas que deram base para o enredo do seu livro 'Factotum'.
Finalmente ele conseguiu uma vaga trabalhando para o governo dos EUA nos correios, e ficou lá por 11 anos. Apesar de tudo ele sempre esteve em dia com a pensão da sua filha, embora escrevesse constantemente sobre o quão feia era a mãe da criança. E até onde sei, ele nunca ficou totalmente desabrigado até se consagrar como escritor. Seu período nos correios foi documentado na íntegra em seu livro 'Cartas na Rua'.
Apesar de escrever sobre a pobreza que passava, ele teve uma pequena herança deixada por seu pai, uma poupança que ele recorria sempre que ficava sem salário fixo. 

Sua Disciplina
Imagine trabalhar cansativas 10 horas nos correios, voltar para casa e discutir ferozmente com sua esposa ou namorada, ou quase-namorada, ou a prostituta da vez que estivesse vivendo com você, se encher de três ou quatro caixas de cervejas, e ainda sentar para escrever. Ele fazia isso praticamente todos os dias. A maioria das pessoas que pretendem escrever um livro, terminar uma pintura, ou iniciar o seu próprio negócio, não possuem a disciplina necessária para realizar esses feitos.
Quando mais jovem, ele passava quase todos os seus dias enfurnado em bibliotecas conhecendo grandes escritores. Seu amor pela literatura era tão latente, que ela acabou substituindo praticamente tudo na sua vida. Ele escrevia como se soubesse que morreria no dia seguinte. E a cada dia ele tentava colocar as palavras certas na linha, não importando se o resultado era bom ou ruim, ele provavelmente publicou absolutamente tudo que escreveu. 
Um livro possui em média 60.000 palavras. E a teoria dele é que se você escrever 1000 palavras por dia, então terá 6 livros prontos até o final do ano. Principalmente com as obras de poesia que são consideradas menores.
Sua Poesia
Eu sei que não deveria dizer isso em voz alta, mas eu realmente não gosto muito de poesia. Pra mim sempre soou como o 'banquinho e violão' da literatura. No entanto, dos poucos poetas que li e gostei, Bukowski também conseguiu estar no topo da lista dos melhores. Ele conseguia dominar sua poesia de forma que cada palavra em suas frases fosse poderosa e eficaz, tirando aquele ar pretensioso de pseudo-intelectual que o próprio nome carrega. E foi essa formação que lhe deu a base necessária para escrever suas histórias mais longas.

Charles Bukowski: Alcoólatra, trabalhador braçal, misógino ( você pode encontrar facilmente no Youtube um vídeo em que ele, com quase 60 anos, literalmente chuta sua esposa com raiva enquanto está sendo entrevistado), anti-guerra, anti-paz, anti-a-porra-toda, odiava a todos, provavelmente inseguro, extremamente honesto, e um cara que precisava escrever todos os dias, ou então morreria.
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Comentários
1 Comentários

Um comentário :

  1. E é claro que esse texto só poderia ser escrito por você!!! rs...
    Bukowski é mesmo a sua cara, o que significa que não tem nada a ver comigo, que sou uma moça boazinha e inocente!!! rs... (Ah tá...)
    Mas sério agora, acho que os pontos levantados nessa postagem são realmente interessantes e o autor merece crédito por elas, mas sempre achei a visão de mundo dele muito pessimista e depressiva. A ideia que tenho dele é de um velho resmungão reclamando que nada está bom na vida... Sei lá! Não é pra mim!!
    No fundo gosto de ser enganada pelos autores, gosto de acreditar que tudo tem um final feliz...
    Beijos
    Camis - blog Leitora Compulsiva

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