Como despachar um escritor vagabundo na encruzilhada

POSTADO POR: admin sáb, 19 de outubro de 2013

Agora que a velha morreu, o negócio é tirar o
sobrinho vagabundo da casa de trás. As primas conversavam:
– Um camarada que não trabalha, só bebe, fuma e
escreve! Como é que faz??
– Escreve o que, hein…?
– Um monte de porcaria! Um jumento desses vai
escrever algo que preste, Abigail?!
– É… Pois é… Você já leu alguma coisa?
– Nem perco o meu tempo!
– Coitada da mãe…
– Coitada da família toda, a mãe é uma idiota!
Agora ele vai sumir; pelo menos da casa ele some. E que vá para o Diabo que o
carregue!
– Quem vai morar lá depois?
– Isso é o de menos… O importante é ele sair.
Já falei com o Pai Valdenir de Ogum, deixa esse traste comigo!
Acordei de manhã bem cedo, caminhei para pegar o
jornal, e na porta da minha casa havia, digamos, uma festinha montada para o
além: pano vermelho, velas pretas, cachaça, bife acebolado (tava cheiroso
aquilo lá), farofa amarela, foto 3×4 da época em que eu cursava o ensino médio,
moedas, cabeça de cera (uma obra de arte), maço de cigarro (quase fumei aquela
porra)… Coisa linda! Seja lá qual for o lance alguém deve ter ficado bem
feliz no inferno por ter recebido este mimo.
– Alô Ernesto, sou eu.
– Fala maluco!
– Vou aceitar o teu convite. Vamos rachar o apê,
pelo menos por alguns meses até eu encontrar uma caverna pra mim. Essa família
de mesquinhos imbecis aqui já deu.
O Ernesto se animou. Desde quando vendeu o
apartamento em Madureira e passou a viver de aluguel no Catete, a vida do meu
amigo mudou bastante. Já passou até fome para, segundo ele, estar mais perto do
núcleo cultural carioca.
– Fizeram macumba para eu sair daqui, Ernesto. Só
que eu já quero sair faz tempo. Gastaram pólvora à toa.

Arrumei as malas, as caixas com os livros, o computador velho, algumas garrafas
de vinho, meus poucos pertences e pronto. O Ernesto veio me buscar de carro.

– E aí?
– O quê?
– Vamos sacanear o macumbeiro safado hoje ou
amanhã?!
– Esquece essa porra, o lance agora é seguir em
frente. Preciso escrever mais, trabalhar mais.
– Eu já comprei uma galinha da Angola.
– Pra quê?
– Vamos montar uma macumba, de sacanagem na porta
do macumbeiro, com farofa, vela acesa, foto do Vagner Love, bandeira do
flamengo e tudo mais.
– Não comece, Ernesto. Você é doente.
– To falando sério!! Vamos sacanear, eu odeio
gente que faz isso aí!
– E o meu flamengo tá fazendo o que nessa
história??
– Fritz… Toda a macumba que eu vejo tem uma
bandeira do flamengo.
Depois de muito conversar, Ernesto desistiu da
ideia de despachar a ‘macumba teatral’ na porta de alguém. Mas agora não sabia
o que fazer com a galinha que comprou, e ficou preocupado.
– Ué… Vamos comer a danada. – eu sugeri.
– Não posso; agora a galinha é de macumba. Tem
que respeitar esse negócio.. Você mesmo disse.
– Ernesto de Deus… Você é um cara estranho! No
entanto é um bom amigo.
– Você também é. Hoje nós vamos ligar para o
pessoal e encher a cara! Vai dar um livro novo isso aí.

(Espero arrumar logo apartamento decente. E
espero não estressar rápido demais com as loucuras do Ernesto.)

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