De mendigo e maluco, eu até que entendo um pouco

POSTADO POR: admin qua, 21 de novembro de 2012

– Você viu ali?!
– O quê?
– Um rapaz mexendo na lixeira logo ali atrás. A gente acabou de passar
por ele.
– Ah, isso. Vi sim, o que tem ele?
– Poxa,… Acho que vou voltar e dar o meu lanche pra ele.
– O quê?! Tá maluca? Nem pensar.
– Mas fiquei com pena dele…
– Nós caminhamos até aqui pra comprarmos os lanches e economizarmos na
‘taxa de entrega’ do delivery, e
agora você quer entregar nosso rango pro maluco da lixeira?
– Nosso não. Só o meu.
– Que seja. Ainda assim, não permitirei que cometa essa estupidez.
– Você não tem coração?
– Claro que tenho,… Só que no momento a minha fome é ainda maior.
– Sua fome? Imagina a fome daquele pobre homem que está procurando
alimento na lixeira.
– Quem te garante que ele está com fome?
– Isso é óbvio. Por qual outro motivo ele estaria fuxicando na
lixeira?
– Por nenhum motivo em especial, ele pode ser apenas um maluco. Nem
todo morador de rua é necessariamente um desafortunado faminto. Alguns simplesmente
preferem viver nas ruas a ter que conviver com suas próprias famílias. Outros caíram
‘na pista’ por causa da bebida, e esses não costumam sentir fome. E uma pequena porcentagem de mendigos é
simplesmente composta por malucos, e aquele ali é um deles. Vai por mim,
conheço um maluco quando vejo um.
– O único doente mental que estou vendo por aqui, é você. Não acredito
que  perdeu tempo criando este argumento mirabolante só pra não dar comida
pro rapaz. O lanche é meu e ponto. Me dá aí a minha parte que eu vou sim
entregar pro pobre.
– Bom,… Você é quem sabe.
Ali mesmo na rua, separei o sanduiche e parte das batatas fritas em
uma das sacolas plásticas que eu carregava. E logo ela voltou pelo trajeto levando
o lanche nos braços com todo cuidado.  Parei e esperei na esquina enquanto observava
o ‘maluco’ receber a sacola recheada de fast
food
com uma expressão de quem encontrou água no deserto.
Continuamos a caminhada, ela com uma expressão indisfarçável de
orgulho no rosto e eu com a plena convicção dos meus argumentos.
Paramos em um cruzamento logo adiante e enquanto esperávamos o
semáforo abrir para os pedestres, coincidentemente nos viramos para trás ao
mesmo tempo e demos uma conferida no homem. Assistimos quando ele olhou curioso
para o céu um tanto nublado, retirou o lanche da sacola, e jogou toda a comida
na lixeira que revistava momentos antes. Em seguida o cara olhou empolgado para
a sacola plástica e a enfiou na cabeça envolvendo seu vasto cabelo ensebado e
saiu andando para o lado oposto.
Nos entreolhamos. Ela com uma expressão indisfarçável de decepção e eu
ainda convicto dos meus argumentos.
– Nem pense em pedir um pedaço do meu lanche. Maluco não divide
comida.
O sinal abriu e eu atravessei o cruzamento. Ela ainda ficou parada por
alguns instantes, provavelmente recuperando-se do ‘golpe’. Mas não demorou
muito em se apressar para me alcançar, pois logo começou a chover.